Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 12

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Tradutor: John Art | Revisão: John Art, Dyonizio, Ryan e Pedro

Informações solicitadas: os quatro picos sagrados.
Relatório inicial… 

O Vale Sagrado é um paraíso alojado entre uma cadeia de montanhas. Ele é protegido do mundo externo pelo clima, terreno, natureza inóspita das regiões circundantes, lendas antigas e também por certos indivíduos importantes que têm interesse em manter o vale inexplorado. A maior parte do mundo esqueceu do Vale Sagrado ou o considera um lugar desinteressante.

Mas ele tem uma longa história, e essa história deixou sua marca no mundo.

As quatro montanhas que circundam o Vale Sagrado são conhecidas pelos habitantes locais como os “picos sagrados”, locais de mito e mistério. Cada uma das quatro maiores Escolas da região reivindicou um pico como seu lar e os segredos encontrados neles garantiram a essas organizações certas vantagens.

Ao norte, a montanha Yoma é repleta de árvores de Orus roxas na maior parte do ano. A Escola da Folha Caída transforma os frutos dessas árvores em produtos e os vende, assim como fazem elixires secretos para fortalecer seus próprios alunos. Eles também possuem a maior e mais óbvia entrada para o labirinto que forma a base de todo o Vale Sagrado, uma entrada que eles chamam de Portão Inferior. Tal portão tem trinta metros de altura e é esculpido com a imagem de um Dreadgod. A cada dez anos, ele abre, e os Anciãos da Folha Caída são capazes de recuperar alguns tesouros nos níveis iniciais do labirinto.

À oeste, o Monte Venture mostra sua composição mineral distinta com penhascos vermelhos-ferrugem. É o mais baixo dos quatro picos e a maior parte da mineração no Vale Sagrado ocorre aqui. Esta é a casa do clã Kazan e o território da Escola da Espada Dourada, os lucros da mineração são divididos entre eles. Ferrouro e Meioprata são a produção primária dessas minas, embora um relatório adicional possa ser solicitado a respeito dos materiais especialmente raros ou trivialmente mundanos.

Ao sul, a montanha chamada Pai generoso está quebrada, seu pico tem uma forma que lembra a boca de uma garrafa. Há poças de água lá em cima, cascateando pelas falésias em um riacho conhecido como Rio do Dragão. Alimentadas pela aura da água no topo da montanha, tempestades destroem essas encostas o ano todo, e a Escola do Vento Sagrado mantém abrigos para os desafortunados viajantes que forem pegos do lado de fora durante um desses eventos. Os Anciões da Vento Sagrado mais influentes podem se banhar na piscina conhecida como Lágrimas do Pai generoso, regenerando sua vitalidade de corpo e espírito.

À leste, o Monte Samara ergue-se como o mais alto dos quatro picos sagrados. Está coberto de neve e coroado por um anel de luz branca e pálida que circunda seu cume. Essa auréola aparece ao pôr-do-sol e desaparece ao nascer do sol, de modo que ninguém no Vale Sagrado jamais experimentou uma noite totalmente escura. A auréola de Samara é uma construção de aura de luz criada por um especialista séculos atrás, e é a razão pela qual tantos artistas sagrados no vale praticam artes do aspecto da luz. A Escola da Glória Celestial reivindicou este pico e usa o poder do anel de Samara para reunir aura de luz, mesmo nas noites sem luar.

Tópico sugerido: origem dos picos sagrados. Continuar?
Negado, relatório completo. 

***

Sem os pulmões de um Ferro, Lindon não conseguia fazer sua voz ser ouvida em todos os cantos da arena, mas gritou o mais alto que pôde. “Honrado representante da Escola da Glória Celestial! Este aqui lamenta que tais exibições tenham lhe causado vergonha e implora mais uma chance para provar seu valor.”

No camarote acima, o garoto de branco e dourado deu um passo à frente. Sua expressão era fria e ameaçadora, como se desejasse que Lindon fosse executado antes de dizer outra palavra. “Por que eu deveria te dar essa chance?”

“Wei Jin Amon vai se tornar um discípulo de sua escola, não é?” Amon, assustado, olhou de Lindon para o representante. “Se este aqui conseguir forçá-lo a sair do ringue, ou fazê-lo admitir a derrota, então aqui este certamente demonstrou seu próprio valor. Caso isso aconteça, este aqui pede uma vaga na sua escola.”

O menino deu uma risada alta e única. “Minha escola só aceita quem tem potencial. Você não tem nenhum.”

“Este aqui não se atreve a contradizê-lo, honrado convidado, mas se este aqui por acaso derrotar Amon… então com certeza, este aqui provou sua habilidade. E com a ajuda da Escola da Glória Celestial, então certamente tal potencial pode ser cultivado.”

Wei Jin Sairus tinha um status alto demais para simplesmente agarrar Lindon e arremessá-lo para fora da arena, mas parecia que era exatamente isso o que ele queria fazer. “Você foi longe demais!” Ele trovejou, mas o Ancião da Glória Celestial levantou a mão para detê-lo.

“Já perdemos muito tempo com esse absurdo”, disse o menino. “Deixe-o lutar. Wei Jin Amon, certifique-se de que ele não tenha tempo para admitir sua derrota.”

As palavras frias causaram um calafrio na espinha de Lindon, mas ele se curvou novamente. “Isso significa que a Escola da Glória Celestial aceita minha proposta?”

“Sim, contanto que o clã Wei aceite as consequências da tua derrota.”

“Certamente”, declarou Sairus. “Um Inanimado não é nenhuma perda para meu clã. Uma morte honrosa em um duelo é mais do que ele merece.”

Lindon ergueu os olhos para as arquibancadas. Kelsa parecia horrorizada, Jaran estava meio levantando-se em fúria, e o Primeiro Ancião balançava a cabeça tristemente. Nenhum deles poderia intervir.

Apenas sua mãe franziu a testa, como se estivesse considerando algo.

“Artistas sagrados, preparem-se!” o Patriarca gritou. Seu neto passou a mão pela lança, seu rosto tão frio quanto sua insígnia de ferro. Lindon se inclinou para frente o máximo que pôde, como se fosse se lançar contra Amon imediatamente.

“Lutem!”

Lindon correu para o outro lado.

Uma onda de risadas explodiu nas arquibancadas enquanto observavam a criança do estágio da Fundação fugir do praticante de Ferro. Amon não se dignou a persegui-lo, mas endireitou-se, sua lança presa no punho. “Você quer me envergonhar ao ponto de eu ter de persegui-lo?” ele perguntou, em um tom muito baixo para ser ouvido pelos outros. “É esse o seu plano?”

Lindon não respondeu. Quando ele alcançou a borda do palco, ele se virou para seu primo. “Este aqui aguarda pacientemente pela sua orientação”, disse ele educadamente.

Quando Amon se moveu, Lindon mal pôde ver. Ele parecia cruzar uma dúzia de metros em um único passo, as chamas da Raposa reunidas em torno da ponta de sua lança traçavam linhas no ar como serpentes brilhantes.

Mas ele não era mais rápido do que o espírito de Lindon. O Inanimado enviou uma pulsação de madra do calcanhar para o palco, desfazendo o selo que colocara em uma jarra três dias antes.

Libertem-se, ele disse mentalmente, e os Remanescentes destruíram sua prisão. Eles seguiram o fio fraco de seu poder para cima e através da pedra, atravessando-a como fantasmas.

Um enxame de vespas de cor verde girou em torno de Lindon como esmeraldas, zumbindo em fúria. Seu comando ainda os limitava: Ataquem. Como um só, os Remanescentes se viraram para enfrentar Wei Jin Amon. O Ferro se deteve, derrapando até parar na pedra, mas estava se movendo muito rápido. Ele não conseguiria parar a tempo e mesmo que conseguisse os Remanescentes não lhe teriam permitido escapar.

Eles avançaram sobre ele como um cardume de peixes vorazes, seus ferrões brilhavam enquanto lhe picavam. Ninguém conseguiria exibir o comportamento tranquilo ideal de um artista sagrado sob tal condição; Amon gritou como uma criança, agitando sua lança como um novato, golpeando descontroladamente o ar ao seu redor.

Por alguns segundos, Lindon apenas observou. Quando viu nebulosos pulsos de energia roxa e branca emanando do corpo de Amon, fazendo com que as vespas parassem ou girassem em espiral, ele soube que seu primo havia focado seu espírito na defesa. Agora era a sua chance.

Lindon avançou e os Remanescentes se separaram diante dele. Amon ainda era perigosamente forte, sua lança varria o ar, e Lindon levou um instante para avaliar sua direção antes de estender a mão e pegá-la.

A madeira bateu dolorosamente em sua palma, mas não com a força que um ataque verdadeiro teria. O espírito de Amon estava um caos e ele não conseguia focar suas forças.

Com as duas mãos, Lindon arrancou a arma. Amon parecia não entender o que havia acontecido, pois tropeçou cegamente para a frente.

Enquanto todos no clã que alcançavam pelo menos o Cobre recebiam treinamentos com uma arma básica, Lindon nunca teve essa oportunidade. Ele não tinha ideia de como usar uma lança além de imitar o que tinha visto os outros fazerem. Felizmente, ele não precisava de muita habilidade.

Ele agarrou a lança com as duas mãos como um porrete e começou a acertar Wei Jin Amon em todos os lugares possíveis. A ponta afiada da lança lhe atingiu algumas vezes, fazendo seu sangue escorrer, mas Amon era um Ferro. Ele corria muito mais perigo com os ataques dos Remanescentes do que com os patéticos ataques de Lindon.

Ainda assim, Lindon não pôde negar sentir um pouco de empolgação. Ele sonhou com este momento por anos.

Sob o ataque das vespas e de sua própria arma, os gritos de Amon se transformaram em soluços. “Eu… não…” ele tentou dizer, mas Lindon não diminuiu seu ataque. “Eu… des…” ele começou, e então seu oponente decidiu que era hora de acabar com isso.

Lindon deu a volta para o outro lado de seu primo, invertendo sua lança até que a coronha descansou contra o peito de Amon. Então ele o empurrou.

O Ferro caiu no chão fora do palco.

A arena toda estava em silencio, exceto pelos soluços de Amon e o zumbido dos Remanescentes, que continuavam seus ataques até receberem outra onda da madra de Lindon. Quando o fizeram, eles responderam como um enxame: “TAREFA CONCLUÍDA.”, e então voaram para longe.

 Ninguém lhes impediu. Alguém como o Patriarca certamente poderia tê-los destruído se quisesse, mas até ele parecia paralisado. Seu rosto ficou vermelho enquanto olhava para Lindon, sua boca escancarada como se ele não pudesse expressar sua fúria. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Lindon fez uma reverência aos convidados estrangeiros mais uma vez. “Wei Jin Amon admitiu a derrota e deixou os limites do ringue.”

Mais um instante de silêncio, exceto pelos sons patéticos feitos por Amon, e então o garoto da Glória Celestial começou a rir. “Essa é a honra e a dignidade do clã Wei, então? Uma criança ataca outra por uma posição inferior na minha escola, vocês lutam pelos nossos restos? ” O vento envolveu o Patriarca Sairus e Lindon foi envolto em uma escuridão absoluta. O Patriarca lhe havia cegado.

Ainda naquela manhã, Lindon teria entrado em pânico e implorado por perdão. Mas depois de ver a demonstração de poder de Suriel, esta aqui lhe parecia um pouco… fraca e simples demais.

“Perdoe-nos, Ancião Whitehall”, disse Sairus. “Nós vamos punir o Inanimado.” Ancião? Essa criança já era Jade? Lindon não tinha notado a insígnia do menino antes, mas isso era incrível.

“Não!” Whitehall disse. “A Escola da Glória Celestial deu sua palavra, e uma criança não pode fazer com que a quebremos. Vamos abrigar Wei Shi Lindon enquanto ele puder atuar conforme o padrão de um discípulo da nossa Escola. ”

O que não demoraria muito, Lindon tinha certeza, mas não importava. Ele só precisava encontrar Yerin, a Discípula do Sábio da Espada, e deixar o vale. “Mas viemos de Samara apenas para recrutar um discípulo”, continuou o Ancião. “Não temos espaço para dois. Faça seu neto meditar sobre seus fracassos e, talvez, quando tivermos novamente vaga o consideraremos de novo”.

A escuridão sobre Lindon se dissipou, e ele caiu de joelhos, pressionando a testa contra a pedra fria. “O discípulo Lindon cumprimenta o Ancião Whitehall.”

“Não acredite em suas próprias mentiras”, disse o menino em dourado e branco. “Se você durar uma semana na montanha, eu vou te ensinar pessoalmente.”

***

O resto do Festival de Sete Anos passou sem incidentes, no que dizia respeito a Lindon. Suas perguntas veladas para sua família sobre um praticante Ouro do Clã Li, ou a Fênix descendo do céu, foram recebidas com olhares confusos e investigações cuidadosas. Sua mãe, pelo menos, estava preocupada que alguém no Caminho da Raposa Branca tivesse interferido em sua percepção.

Kelsa venceu i segundo mais forte jovem Ferro do clã Wei, enquanto Wei Jin Amon estava muito ocupado se recuperando de seus ferimentos para participar. Ela acabou perdendo para uma garota Kazan, mas isso não foi suficiente para manchar suas conquistas. O próprio Patriarca presenteou-a com um par de elixires valiosos, anunciando que ela “redimiria a vergonha que caiu sobre a família Shi”.

Depois de receber seus prêmios, Kelsa voltou para casa com Lindon ao seu lado. Ela falou sobre o Festival com grande entusiasmo enquanto ele caminhava em silêncio.

“…Vou precisar de um desses elixires para estabilizar meu núcleo agora que cheguei ao Ferro, mas o segundo não vai ajudar muito. Dizem que são necessários vinte desses para chegar perto de Jade, pode imaginar? Cada um custa cinco mil fichas. Fora isso se deve circular o madra por anos entre os consumos de um e outro.” Ela olhou para o lado, dando a ele um sorriso irônico. A caixa de elixires estava amarrada em uma bolsa de pano, e essa bolsa pendia descuidadamente de sua mão enquanto ela caminhava. “Eu compartilharia um com você, mas duvido que você vá precisar. Glória Celestial. Você comerá frutas espirituais em todas as refeições e beberá elixires como água. Em vez de compartilhar com você, eu deveria estar pedindo que você compartilhe comigo.”

Lindon conhecia Kelsa. Ela não estava querendo uma esmola, apenas puxando conversa. Se ele realmente se oferecesse para compartilhar qualquer elixir da Glória Celestial, ela recusaria, a menos que ele a enganasse.

Mas o pensamento lhe causou um certo pesar. Se tudo corresse de acordo com o plano, ele não veria Kelsa ou o resto de sua família por mais de vinte anos. Era uma quantidade de tempo gigante para ele, incompreensivelmente vasta.

Sua irmã leu seu silêncio e parou, esticando um braço na direção do peito do rapaz. Foi como se ele tivesse sido atingido por um galho de árvore, o antebraço dela bateu nas costelas dele com a força de uma clava. Ele tossiu, o peso de sua mochila lhe empurrou e então ele cambaleou para trás, perguntando-se se isso lhe deixaria um hematoma. “O que foi isso?”

“Você está muito quieto”, disse ela, cruzando os braços. A caixa de elixires estava pendurada em sua bolsa de seda azul. “Algo aconteceu.”

Ele pressionou os dedos sobre seu tórax, analisando-o. “Estou ouvindo, não meditando sobre traumas de infância. Talvez eu devesse falar tudo de agora em diante, e você devesse receber alguns socos.”

Ela o olhou fixamente. “Você pode me socar até os nós de seus dedos se desfazerem, mas quando terminar, preciso de uma resposta. Você conquistou tudo o que sempre quis. Mais do que eu; há pessoas que te matariam por um lugar como discípulo daquela Escola e você não está orgulhoso disso, você não se regozijou ou tentou obter algo extra do clã antes de partir. Você nem mesmo foi pegar sua recompensa com o Primeiro Ancião, e ele me disse que esperava vê-lo antes do pôr do sol no dia do torneio da Fundação. Quando você não apareceu, ele pensou que estivesse morto.”

O acordo que ele fez com o Primeiro Ancião, uma cópia do Caminho da Raposa Branca em troca de exibir suas habilidades no Festival de Sete Anos, parecia ter vindo de uma vida diferente. Ele estava sonhando antes de conhecer Suriel, e agora havia acordado.

Não que ele pudesse dizer isso para sua irmã.

“Minha parte do acordo não foi cumprido”, disse Lindon. “Eu deveria derrotar um Cobre de outro clã e mostrar a eles o poder dos Wei, mas acabei humilhando o melhor discípulo de nosso próprio clã.”

Kelsa colocou os elixires cuidadosamente no chão e o agarrou pelos ombros. Ela se inclinou para frente, rosto a centímetros do dele, seus olhos escuros carregados ​​de preocupação. “Você está morto? Porque isso não é nada que meu irmão diria. Meu irmão teria tentado convencer o Primeiro Ancião de que derrotar Amon era melhor do que derrotar qualquer Cobre de outro clã.”

Lindon encolheu os ombros, desviando os olhos. “Eu estou indo para uma Escola. Eu não vou precisar mais disso.”

Ele não estava preocupado em manter Suriel em segredo. Espalhar boatos sobre ela não iria prejudicá-la, e receber uma visita dos céus era uma fonte de orgulho, não de vergonha. Se isso fosse tudo, ele estaria tentando convencer sua irmã a acreditar nele, não mantendo isso em segredo.

Mas ele viu mais do que apenas um mensageiro celestial. Ele tinha visto o fim do mundo.

Não havia nada que Kelsa pudesse fazer para mudar isso, nada que ela pudesse fazer para ajudá-lo. Mesmo que acreditasse completamente nele e estivesse disposta a deixar o Vale Sagrado ao seu lado, como ela poderia ajudar? Ela não era uma discípula da Glória Celestial, então não podia segui-lo pelas encostas de Samara, e ela não era forte o suficiente para sobreviver aos terrores fora do vale mais do que ele próprio.

Se Lindon falhasse e morresse no caminho, como era mais do que provável acontecer, ele não queria que ela vivesse indefesa sob uma nuvem de destruição. Ela ficaria mais feliz se ele não dissesse nada.

Tudo isso era verdade, mas ele ainda a queria contar o que aconteceu. Ela ainda o estava observando a alguns centímetros de distância, ainda o olhando com preocupação genuína. Ele se pegou dizendo: “Há… algo que você se lembra daquele dia no torneio da Fundação? Algo estranho?”

Suas sobrancelhas se ergueram. “Eu diria que sim. Você lançou um enxame de vespas em Wei Jin Amon e bateu nele com sua própria lança.”

“Algo mais?” Agora era a vez dele examinar os olhos dela, procurando algum sinal de reconhecimento, qualquer lembrança inquietante. “Você não sentiu como se num momento estivesse em lugar e então em outro? Você não perdeu nenhuma memória?”

“Como eu saberia se tivesse perdido?” ela perguntou. O que quer que ele estivesse procurando em seu olhar, ele não achou.

O rapaz deu um passo para trás e ela permitiu que ele se soltasse. “Estou nervoso, é só isso”, disse ele. “A Glória Celestial não aceitará um discípulo como eu, e eles vão tentar me forçar a ir embora a todo instante.”

Kelsa o observou por mais um momento, então pegou sua bolsa de elixires do chão. “Provavelmente sim, mas e daí? Você pegará o que puder deles, então se ficar muito perigoso, você simplesmente vai embora. Talvez você consiga um elixir ou alguns tesouros no topo da montanha. Isso pode ser o bastante para deixar o clã orgulhoso.”

Eles chegaram ao complexo da família Shi, uma praça de casas bem lotadas, ao cair da noite. O anel de luz ao redor de Samara brilhava em branco, iluminando o pico nevado e lançando um manto de luz por todo o vale.

Ele encarou sua casa sob o anel de Samara como se fosse a última vez que o faria. De manhã, sua mãe e seu pai se despediram casualmente, e todos garantiram que ele seria bem-vindo de volta, independentemente do que acontecesse. Eles não entenderam por que ele lutou contra as lágrimas ao se despedir, pois esperavam que ele voltasse em não mais de uma ou duas semanas.

Mas no fim das contas, ele ainda tinha que ir. Ele tinha visto muito para apenas ficar em casa e fingir não saber nada.

***

O grupo da Glória Celestial era liderado pelo Ancião Whitehall, que era uma cabeça mais baixo que Lindon. Ele parecia não ter mais do que onze ou doze anos, apesar de suas complexas vestes brancas e douradas e da insígnia Jade em formato de flecha em seu peito.

Ele esperou com dois discípulos de sua escola diante de uma carruagem puxada por dois Remanescentes. A carruagem em si parecia melhor do que qualquer coisa que o Patriarca cavalgaria, incrustada com nuvens douradas e bestas sagradas dançantes, e os Remanescentes que a puxariam eram um par de bois transparentes. Eles pareciam ser feitos de vapor, ou talvez vidro incrivelmente fino, e – como a maioria dos Remanescentes – eles faziam sons totalmente diferentes de uma criatura viva. Quando batiam com os cascos, o trovão ribombava e seus bufos rebeldes eram como o estalar de um chicote.

“Você nos fez esperar”, disse o Ancião Whitehall, embora ainda faltasse uma hora para o amanhecer. A auréola de Samara brilhava mais forte que a lua, coroando e iluminando seus caminhos.”Arrume logo seus pertences antes de nos deixar ainda mais para trás.”

Os dois discípulos olharam para Lindon mais por curiosidade do que por pena, ele tinha certeza. Em seguida, subiram na carruagem atrás de seu mestre. Lindon amarrou sua mochila volumosa no teto antes de perceber que faltava algo ali: um cocheiro. “Apresse-se, Inanimado,” o Ancião disse de dentro da carruagem. “Tenho negócios para tratar na escola.”

Sem uma palavra de dissidência, Lindon subiu no banco do cocheiro, atrás dos bois. Até mesmo ali era acolchoado. Ele estava grato pelo conforto e pela falta de companhia.

Com um instante de concentração, ele mandou uma gota de madra para as rédeas. Uma linha de inscrição rúnica seguia por dentro das tiras de couro, levando seu poder para os Remanescentes. Eles rugiram como duas tempestades, suas formas transparentes ondulam sob a luz, e então começaram a puxar.

Depois disso, a viagem foi fácil. A princípio, Lindon ficou preocupado com a possibilidade de ter de pedir instruções ao Ancião Whitehall, mas descobriu que o caminho em direção à Samara era claro e amplo. Eles cavalgaram por horas enquanto o sol nascia, as árvores Orus de folhas roxas, aos poucos deram lugar à uma paisagem verde cheia de colinas.

A auréola do Monte Samara desbotou e escureceu conforme eles se aproximavam, eventualmente desaparecendo durante o dia. As encostas da montanha eram esparsas, salpicadas com o ocasional bosque de árvores retorcidas ou a mancha colorida de um Remanescente voador.  A montanha agigantou-se sobre eles ao romper do meio-dia, como uma parede ocupando metade do horizonte.

A estrada terminava na base da montanha, transformando-se em um caminho de terra que serpenteava para cima. Lindon hesitou ao ver a trilha, mas os bois não, continuando seu caminho montanha acima com uma determinação obstinada.

Em segundos, o Ancião Whitehall percebeu a mudança. “Pare!” ele disse e Lindon não teve escolha a não ser pedir aos Remanescentes que parassem seu avanço no meio de uma encosta íngreme. Eles pararam a carruagem como se seus cascos estivessem sido pregados na encosta da montanha.

O Ancião infantil saltou da carruagem, seus discípulos o seguiram como damas de companhia. Mas quando alcançaram o solo curvaram-se para Whitehall, saudando-o com os punhos fechados.

Lindon deixou o banco do cocheiro e fez o mesmo. Não fazia sentido desrespeitar um Ancião antes mesmo de chegar à escola.

Whitehall não lhes deu atenção, caminhando para a direita, contornando a borda da montanha. “Vocês três trilharão um caminho diferente montanha acima. Este é o primeiro teste de qualquer discípulo da Escola da Glória Celestial. ”

Lindon ficou um tanto surpreso ao saber que os outros dois estavam sendo tratados da mesma maneira que ele. Ambos eram mais velhos, mas apenas por um ou dois anos. Um era tão alto quanto Lindon, com cabelo castanho, um tom mais escuro que o de sua mãe, o outro mais baixo com cabelo preto. Caso contrário, suas aparências eram totalmente comuns.

Nada notável, exceto pelas insígnias de Ferro em seus peitos. Cada olhar que eles lançavam para sua insígnia de madeira cutucava seu orgulho.

Ele sabia que tinha que suportar isso. Eles nunca iriam passar de Jade; eles estavam quase no fim de seu Caminho, enquanto o dele estava apenas começando.

Uma série de pedras marcavam a paisagem onde parte da montanha deve ter deslizado anos antes, e cada passo do Ancião Whitehall o levava de uma pedra a outra. Os discípulos de Ferro o seguiam sem dificuldade, mas Lindon forçou seu corpo ao limite apenas para manter-se perto do grupo. Mais de uma vez, ele cambaleou a poucos centímetros de cair da rocha e quebrar a cabeça, e tinha certeza de que não receberia o melhor atendimento médico da Escola, caso isso acontecesse.

Eles chegaram em menos de uma hora, com o ancião e os outros dois discípulos tão descansados ​​como se tivessem acabado de começar aquela caminhada. As roupas de Lindon estavam empapadas de suor, sua respiração ofegante, seu espírito confuso e fraco pela quantidade de madra que ele usou para apoiar seus membros debilitados.

Whitehall e os outros dois estavam olhando montanha acima, e embora doesse até mesmo virar o pescoço, ele seguiu seus olhares. Nas encostas do Monte Samara havia uma escada. Em vez da pedra áspera marrom-acinzentada que o cercava, seus degraus eram polidos e brancos. Ela era tão larga que cem homens podiam marchar lado a lado e subi-la ao mesmo tempo. Além dos primeiros degraus, Lindon não conseguia ver mais nada.

Depois disso, o caminho estava obscurecido por nuvens. Formas se moviam sob essas nuvens, sombras com chifres retorcidos e mandíbulas abertas. Até mesmo os dois Ferros encaravam a escada com apreensão.

“Contemplem O Julgamento da Gloriosa Ascensão”, disse Whitehall com orgulho. Lindon teve que admirar o antigo líder da Escola que inventou esse nome. Essa era apenas uma escada com algumas formações de Remanescentes nela, mas eles haviam criado um título tão orgulhoso…

“Dentro dessa nuvem estão alguns Remanescentes do aspectos espiritual e mental que nossa escola domesticou ao longo das gerações”, continuou Whitehall. “Eles vão testar sua determinação, tomada de decisão e as bases sólidas de seu espírito. A cada degrau que você subir, o teste ficará mais difícil. Depois de certo ponto, voltar será impossível. Se você não tem confiança que conseguirá, pode desistir de seu título de discípulo da Glória Celestial e voltar para casa. Eu direi a você que um em cada três discípulos que desafiam esta provação morre ou tem seu espírito quebrado, tornando-se incapaz de praticar as artes sagradas novamente.”

O menino olhou diretamente para Lindon. “Espero que essa estatística seja especialmente apropriada hoje. Algum de vocês gostaria de se retirar? “

Todos os três olharam para Lindon, mas ele manteve uma expressão aberta e honesta, como se não percebesse o que esperavam dele. Após um minuto de silêncio, o Ancião tirou os olhos dele, voltando-se para os outros dois. “Se você chegar ao topo, terá passado e será considerado um discípulo da Escola. Se você chegar lá antes do pôr do sol, no entanto, consideraremos que você tem um futuro brilhante. Nesse caso, você terá permissão para selecionar um item do Salão Inferior dos Tesouros da escola para seu uso pessoal. Lá existem armas, suplementos de treinamento, elixires, construções… até mesmo alguns Anciões não podem pegar coisas livremente nesse salão. Use todos os meios que você tiver à sua disposição para vencer e não encare este teste levianamente.”

 Os outros dois discípulos se endireitaram e os olhos do mais baixinho brilharam. Mas o coração de Lindon disparou. Até o salão de tesouros do clã Wei era suficiente para despertar sua imaginação e desejo, mas o salão da Glória Celestial seria um lugar muitas vezes maior.

Agora ele tinha que chegar ao topo antes do pôr do sol, mas…

Ele encarou a nuvem, onde um par de silhuetas se chocava uma contra a outra em uma batalha distante e silenciosa. Líquido-sombra se espalhava pelo ar. Esse era um teste projetado para promissores jovens Ferros e jovens Cobres geniais. Não havia como ele sobreviver à subida.

Então ele deveria tentar algo diferente.

O Ancião Whitehall saltou diretamente para a escada e de lá seguiu saltando seis degraus de cada vez. “Quando eu chegar à nuvem, vocês podem começar. Eu verei aqueles de vocês que sobreviverem, lá no topo.”

Em segundos, ele desapareceu. Os dois Ferros trocaram algumas palavras breves um com o outro e então correram atrás de Whitehall sem dar a Lindon nem mesmo um olhar. Isso tudo lhe convinha, pois ele também havia saído imediatamente.

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