Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 11

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Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 10
Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 12

Tradutor: John Art | Revisão: John Art, Dyonizio, Ryan e Pedro

Com a ajuda de sua Presença, Suriel observou seu local de destino a mil quilômetros de distância. Ela se dirigia a um trecho vazio de floresta no território de um clã local, marcado por imagens de uma raposa branca de cinco caudas. [O clã Wei,] sua Presença a informou, mostrando-a um texto com mais informações, as quais ela rapidamente cancelou, examinando a área.

Havia uma espécie de festival acontecendo nas proximidades, onde crianças de vários clãs participavam de lutas. Ela assistiu aos jogos ociosamente por um tempo, esperando a violação espacial destinada a ocorrer nas proximidades.

Um garoto em particular chamou sua atenção – alto, ombros largos, uma insígnia de madeira e um rosto áspero. Ele era o mais velho do grupo e venceu com a facilidade que alguém de sua idade deveria vencer. A multidão o tratou com desdém, mas ele parecia se portar com orgulho, como se empurrar crianças de nove anos para fora dos limites do palco fosse uma grande conquista.

Ela o analisou um pouco mais a fundo, examinando sua alma. Logo percebeu um defeito na mesma. Ele nasceu com uma deficiência de madra; isso poderia ser corrigido com o tempo, mas clãs primitivos como esse muitas vezes condenavam os fracos ao ostracismo ou os marginalizavam. Somente os fortes poderiam contribuir para o bem maior.

 Ela ordenou que sua Presença a mostrasse a história do menino, digerindo-a em um instante. Era como ela esperava. Ele nasceu com nada, menos do que nada, e os outros aumentavam seu fardo por causa disso. Ainda assim, hoje, ele lutou. Ela podia admirar isso.

Seu destino desenrolou-se na frente dela, uma série de imagens passando de uma para outra. Ela teria visto imagens mais nítidas, muitos outros caminhos possíveis, se mudasse seus olhos, mas com seu atual disfarce, isso era tudo o que ela podia ver.

O menino luta contra um parente seu, um jovem com longos cabelos negros e uma insígnia de ferro. O menino trapaceia e libera vespas esmeraldas que atacam seu rival, conseguindo assim uma vitória técnica. 

Com uma mochila marrom volumosa nas costas, ele inclina a cabeça sobre um pergaminho, estudando um Caminho Sagrado à luz de velas na casa de outra pessoa. 

O mesmo menino, anos depois, chora copiosamente ao ganhar sua insígnia de cobre.

Já como um homem de cabelos grisalhos, ele, sua esposa e seus filhos se reúnem para uma cerimônia que o leva a ser promovido à Ferro. 

Ele morre durante o ataque de um Dreadgod que destrói um quarto do vale, décadas depois.

Suriel parou a visão, deixando de lado a patética coleção de imagens. Esse seria seu destino dominante, o caminho mais provável para a vida do rapaz, e mil pequenas coisas poderiam mudá-lo. Mas deixado por sua própria conta, ele superaria sua deficiência para viver uma vida feliz e satisfatória, morrendo um pouco cedo demais.

Isso era tudo.

Seu interesse diminuiu, mudando conforme a Presença zumbia em sua mente. [Violação espacial iminente]. Aquela parte da floresta vazia ficou vermelha, brilhando cada vez mais e mais.

Suriel se lançou da saliência em que estava, despedaçando o ar em uma explosão enquanto se movia mais rápida que o som. Ela estava atrasada.

Prever eventos com base no destino era mais arte do que ciência, e também não era sua especialidade. Ela escolheu ficar a alguns milhares de quilômetros de distância por segurança e para evitar interferências indevidas. Ela sabia que era um risco, mas agora o evento estava acontecendo e ela não poderia chegar a tempo sem destruir a atmosfera. Ela poderia dobrar o espaço para se teletransportar diretamente, mas seu alvo sentiria a distorção e fugiria para outro mundo. Mesmo assim, ela não estava excessivamente preocupada.

Qualquer coisa que este invasor pudesse fazer, ela poderia desfazer.

Ele atravessou uma fenda espacial de classe seis. Uma pequena fissura na Matriz que foi reparada imediatamente. Ela observou enquanto ele reunia alguns seguidores ao seu redor—ele devia estar se comunicando com este mundo há algum tempo, o que aumentaria sua sentença—assim como decapitar alguns dos habitantes locais. A coluna de um deles foi cortada de forma limpa, mas ela iria reverter a causalidade em vez de tentar uma reconexão manual. Não fazia sentido arriscar.

Enquanto Suriel reduzia a velocidade de sua chegada, o invasor revelou totalmente seu espírito, escurecendo o céu com aura de tempestade e quebrando pilares próximos para assustar os locais. Ele estava criando um efeito completamente dramático.

“É isso então?” O invasor listrado em preto e branco zombava de seus inimigos. A qualidade do áudio havia melhorado agora que ela estava a duas dezenas de quilômetros. “Não se contenham, venham. Não vou começar até que vocês estejam prontos.”

Suriel se preparou para descer quando percebeu um detalhe que o homem alado havia ignorado. Aquele menino, de quinze anos e vestido de branco, estava se esgueirando até a frente do invasor. Ele reunia seu escasso madra. Terror, determinação e uma auto aversão silenciosa irradiavam dele em uma onda psíquica.

Com o mesmo movimento que ele usou nas crianças antes, o menino enfiou a palma da mão no núcleo do praticante dourado.

Suriel estremeceu antes mesmo que o invasor rasgasse o menino ao meio, enviando seu torso para cima e para fora da arena. O menino devia saber que isso era inútil.

[Ele sabia], sua Presença confirmou.

E ainda assim ele tentou, Suriel pensou. Este era o tipo de pessoa que os Abidan foram criados para salvar: os fracos que se voltavam contra os fortes. O tipo de pessoa que a Fênix deveria salvar. O tipo de pessoa que pode, com um pouco de ajuda externa, ir além de seu destino.

Sua vida se esvaiu visivelmente aos olhos dela, mas isso não significava nada para Suriel. Ele estava apenas morto.

Ela mudou seu plano. Inicialmente ela pretendia congelar o tempo, recuperar o invasor, reverter o dano que ele tinha feito e partir. Com um delicado ajuste de memória, os moradores locais nunca perceberiam que seu dia havia sido interrompido.

Agora, ela tinha um novo objetivo. Makiel não ficaria satisfeito, mas este evento estava oficialmente sob sua supervisão. Ela poderia lidar com isso como bem entendesse.

E ela achou oportuno fazer o invasor suar.

***

A morte parecia surpreendentemente com os últimos momentos de sua vida, Lindon descobriu.

Sua visão se turvou por um segundo em uma névoa cinza, mas agora voltou e ele descobriu que tudo parecia exatamente o mesmo. Markuth estava com as mãos levantadas acima dos cabelos listrados de preto e branco e com as asas abertas, nas mãos havia madra condensado em bolas de energia. Os especialistas Jade dos dois clãs corriam para ele com armas e chamas da Raposa prontas, todos tinham uma visível resignação em seus rostos enrugados. Sangue respingou na arena, e então as pernas dele apareceram próximas à cabeça de sua mãe.

Quando Lindon era criança, certa vez cutucou uma mesa que tinha um vaso de cerâmica em cima, uma herança de gerações da família Shi. A mesa tremeu e ele ergueu os olhos para ver o vaso balançando na beirada. Aquele momento pareceu se alongar, uma única imagem impressa no tempo de forma que pareceu durar para sempre antes do vaso finalmente começar a cair.

No início, ele pensou que isso estava acontecendo agora. O mundo parecia congelado ao seu redor, como se o tempo tivesse se estendido mais uma vez. Ele percebeu e esperou que a batalha recomeçasse.

Mas isso não aconteceu.

Algumas respirações depois – embora Lindon não estivesse respirando e não sentisse necessidade de fazê-lo – o quadro diante dele permaneceu exatamente o mesmo. Ele se perguntou se a morte seria assim sempre, um único instante durando pela eternidade. Ele esperava que não. O tédio parecia um destino pior do que o tormento de um outro mundo.

Então algo mudou. O céu, mascarado pelas nuvens escuras convocadas pelo Grande Patriarca do Clã Li, começou a brilhar em azul. A luz iluminou a parte inferior das nuvens como se um sol azul ciano se erguesse, espalhando sua luz sobre toda a arena.

E sob essa luz, pedaços do mundo começaram a se mover.

Embora Li Markuth permanecesse preso em sua pose de triunfo, os combatentes Jade ainda estavam congelados diante dele, sangue escorria pelo chão ao redor de seus pés. As cabeças cortadas caíram pela arena, juntando sangue enquanto rolavam, quicando na pedra e rolando em direção à floresta.

Suas próprias pernas deslizaram pela pedra, como se seu sangue tivesse se tornado uma corda que ligava todo o seu corpo. O pânico apertou em seu peito e ele tentou lutar, mas não conseguia nem mesmo arregalar os olhos. Nenhuma parte dele respondia aos seus comandos e ele teve que esperar e assistir enquanto sua carne se recompunha. Não era doloroso, mas ele podia sentir uma contorção desconfortável abaixo de suas costelas enquanto músculos e ossos se recompunham.

Enquanto isso, o céu ficava cada vez mais brilhante.

Markuth moveu lentamente a cabeça, descongelando gradualmente, primeiro olhando em volta e depois para o céu cada vez mais claro. Ele tropeçou para trás em choque, batendo as asas como um pássaro em pânico.

“Não!” ele gritou, jogando bolas de madra em direção ao céu. “Espere, por favor! Eu pertenço a este lugar! Esta é a minha terra natal!”

As nuvens se separaram, mostrando a fonte da luz azul, a qual, por um instante, brilhou como um sol safira, criando uma sensação dolorosa nos olhos de Lindon e fazendo-o desejar poder fechá-los.

 A luz diminuiu um pouco, revelando sua origem: duas ondas de fogo azul, como um par de asas formadas por chamas cintilantes e grandes o suficiente para cobrir um terço do céu. Dava a impressão de uma fênix azul, ou talvez um Remanescente da fênix, descia dos céus em glória.

Markuth rugiu para a fênix, puxando a espada de seu cinto. Ela tinha o formato de uma espada reta e simples, mas esvoaçava e tremeluzia, zumbindo estranhamente como se não fosse real.

A fênix desaparecia conforme descia, até que suas chamas não mais feriam os olhos de Lindon. Quando ele pôde ver melhor, notou que havia uma pessoa no coração da fênix: uma mulher, descendo em direção a eles e com asas azuis flamejantes.

Linda, ela era, mas essa não foi a palavra que primeiro ocorreu a Lindon. A primeira coisa que ele pensou foi: perfeita. Era como se alguém tivesse pegado uma pessoa real e a aperfeiçoado, tirando cada mancha de sua pele pálida, arrumando sua nuvem de cabelos escuros para que nada ficasse fora do lugar. Nem muito baixa, nem muito alta, nem muito gorda, nem muito magra. Ela parecia o modelo a partir do qual todos os outros seres humanos foram criados. Ela era tão perfeita que não podia ser real, lembrando Lindon à força de que ele com certeza estava morto. Talvez ela fosse uma mensageira dos céus, aqui para conduzi-lo ao mundo dos mortos. Isso explicaria suas asas em chamas.

Embora, apesar de sua perfeição desumana, ela não se parecia como ele a havia imaginado. Seu corpo estava envolto em uma armadura branca e líquida que se movia sem esforço com ela. Fitas cinzentas de fumaça turva partiam das pontas dos dedos de sua mão direita, enrolavam-se em seu braço e terminavam no pescoço. Seu cabelo parecia castanho à primeira vista, mas depois de refletir melhor, ele o definiria como um verde profundo. E seus olhos, grandes e humanos, eram com certeza roxos.

Os céus deveriam ser um lugar estranho para produzir pessoas assim. Mas com ela aqui, ele descobriu que podia relaxar. Talvez quando ela o levasse para sua próxima vida, ele seria mais do que um simples Inanimado.

Markuth estava com o peito arfando e com a espada na mão direita, mas ele não atacou. “Eu não violei o Pacto, não perturbei o equilíbrio deste mundo, nem mesmo desafiei os Abidan. Exijo um julgamento antes… ”

Uma corda invisível agarrou Li Markuth pelo tornozelo, desequilibrando-o e arrastando-o até um ponto logo atrás da mulher. Ele bateu suas asas, levantando um vento poderoso, lutando contra suas amarras invisíveis, mas sem sucesso.

[Li Markuth] disse uma voz impassível na mente de Lindon. [Você foi condenado a julgamento por violação espacial e tentativa de dominação dos habitantes locais. Você ficará preso até que o Tribunal dos Sete determine a data e o local do seu julgamento.]

Uma mancha negra apareceu atrás da mulher de cabelo verde, um ponto de escuridão absoluta. Ela se alargou, então Lindon pôde ver alguns pontos coloridos dentro dela, como uma distante nuvem de vagalumes pintados com as cores do arco-íris. Markuth continuou sendo arrastado para trás, como se aquele ponto lhe atraísse para lá.

Quando o Ouro se aproximou da mulher, ele rugiu e abriu suas asas, erguendo sua espada estranhamente retorcida. Com ambas as mãos, ele bateu a lâmina na cabeça desprotegida dela, e a força de seu madra foi tal que pressionou Lindon mesmo ele estando do outro lado da arena. As pedras abaixo dela racharam, e o vento soprou com o impacto. O ar vibrou com um som como o do aço se chocando contra a pedra.

A mulher continuou de pé e imperturbada. Nem uma única mecha de seu cabelo saiu do lugar, e ela nunca olhou na direção de Markuth. Ele gritou como uma criança enquanto a escuridão o envolvia, engolindo a ponta de sua espada por último. Por fim o buraco negro se fechou.

A mulher continuou indo na direção de Lindon, sem nem mesmo olhar para o Grande Patriarca do Clã Li, por um instante que fosse. Desde o início de sua descida seus olhos permaneceram fixos no rapaz.

Ela alcançou o chão um pouco antes dele, suas botas brancas e macias encostando na pedra. As asas de fogo azul desapareceram no mesmo momento. Ela o observou mais um pouco, depois fez um sinal para que ele se levantasse.

“Fique de pé”, disse ela. “Não tenha medo.” As palavras soaram estranhas, como se ela estivesse tentando usar um sotaque diferente em cada sílaba, mas eram completamente compreensíveis. Ele ficou surpreso o suficiente por ela ter falado diretamente com ele, em vez de usar aquela voz impessoal e desapaixonada que sentenciou Li Markuth. A voz verdadeira dela soava tão diferente que ele se perguntou se eles tinham vindo da mesma pessoa. Talvez as palavras anteriores tenham vindo direto dos céus.

Quando percebeu que não havia obedecido imediatamente a esta mensageira celestial, ele se levantou, um instante depois se lembrou que deveria estar em agonia, mas não estava.

Na verdade, ele se sentia melhor do que antes do torneio, seu espírito estava totalmente restaurado e seu corpo estava limpo e bem descansado. Lindon pensou em cair de joelhos, mas ela acabara de ordenar que ele se levantasse, então ele se curvou profundamente.  “Este aqui agradece pela atenção, honrada imortal. Por favor, como este aqui pode servi-la?”

Uma vida após a morte a serviço de uma imortal celestial era infinitamente melhor do que sua existência mortal. Se houvesse alguma verdade nos mitos, ele ainda poderia praticar as artes sagradas agora que havia deixado seu corpo físico para trás, então esta poderia ser uma oportunidade inimaginável.

A morte poderia muito bem ser a melhor coisa que já aconteceu a ele.

Ele não podia ver seu rosto, mas ela considerou por alguns segundos antes de falar novamente, sua expressão tão agradável e inflexível como uma máscara. “Esta aqui não exigiria tanto de você.”

Esta aqui? Ele se perguntou se ela estava zombando dele, ou se ele a ofendeu de alguma forma. “Por favor, honrada imortal, não fale com este aqui tão humildemente.”

 “Humildemente? Ah.”

Ela considerou um momento mais antes de limpar a garganta. Desta vez, ela parecia ter passado a vida inteira no Vale Sagrado. “Levante a cabeça e fale livremente. Não tenho paciência para as maneiras deste mundo.”

Ele se endireitou, aproveitando a chance para olhá-la nos olhos. Isso era algo tecnicamente rude da parte dele, mas ela disse que não se importava e ele estava disposto a acreditar em suas palavras. Além disso, esta poderia ser a única vez que ele a veria, e por isso estava determinado a guardar seu rosto perfeito na memória. Mas ainda havia uma resposta que ele precisava.

“Posso perguntar, se você não se importar… estou morto?”

Um sorriso apareceu no canto da boca dela, uma rachadura na máscara. “Você não se sente vivo?”

Ele achava que sim, mas bem, quem poderia dizer como é a sensação de estar morto?

“Se você me trouxe de volta à vida, então…” ele hesitou, olhando para o mundo congelado. Os Anciãos Jade ainda estavam paralisados enquanto corriam para se opor a um inimigo que não mais existia.

Olhos roxos examinavam a cena, seu rosto continuava agradável e impassível. Ela poderia muito bem estar olhando para um campo de flores. “Li Markuth não foi autorizado a retornar a este mundo. Seu ataque foi um desvio do destino natural, que eu reverti. Quando eu partir, será como se ele nunca houvesse estado aqui.”

“E quanto a mim?” Lindon perguntou imediatamente. “Você me restaurou à vida. Terei que esquecer a sua gentileza também? ”

“Sim.” Isso não pareceu incomodá-la nem um pouco.

“Você não acha que poderia… deixar minha memória? Para que eu pudesse ser devidamente grato?” Lindon foi o único a receber tratamento especial dos céus; ele não podia se permitir ir embora como se nada tivesse acontecido.

Ela estendeu a mão esquerda, acariciando as linhas de fumaça cinza na mão direita como se tocasse um instrumento com ternura. “A reversão temporal não é a mesma coisa que modificação de memória. Quando eu terminar aqui, nada que Li Markuth fez terá acontecido realmente. Seu festival continuará imperturbado. Para poupá-lo, eu teria que retirá-lo temporariamente do fluxo do destino.”

“Obrigado por sua consideração, honrada mensageira,” ele disse, como se as palavras dela fossem uma promessa. “Estou pronto.” Seus lábios se contraíram e ele suspeitou que ela estava usando sua expressão neutra para suprimir um sorriso. “Não é um processo complexo para mim. Eu posso tirar você do fluxo do destino com um pensamento.”

“Destino. Então, se você não se ofende com as humildes perguntas deste aqui… você pode prever o futuro?”

“O destino não é o futuro. O que está destinado a ocorrer nem sempre ocorre.”

Ele se curvou para ela três vezes. “Isso é o suficiente para mim, obrigado. Você poderia me contar meu destino? “

Desta vez ela riu, e ele quase se surpreendeu por soar tão humano. “Estou satisfeita por ter descido pessoalmente, Wei Shi Lindon.” Uma emoção lhe atravessou. A mensageira celestial sabia seu nome. “Posso mostrar alguns detalhes limitados de seu destino, se você estiver disposto a vê-los.”

“Este aqui se sentiria honrado.” Ele tentou esconder a ansiedade em sua voz. Mesmo o conhecimento mais trivial do futuro seria uma grande vantagem.

As pontas de dois dedos revestidos de branco tocaram sua testa, como cascas de ovo frias. “Então veja.”

O mundo congelado foi eliminado e substituído por outro. Ele ainda estava de pé na pedra do palco da arena, mas as nuvens que Li Markuth invocou nunca haviam aparecido, e o sol batia forte no céu claro. Wei Jin Amon o enfrentou e, embora ele tenha resistido mais do que o esperado, Lindon perdeu.

Naquela noite, ele cuidava de seus ferimentos sozinho quando o Primeiro Ancião entrou em seu quarto sem bater. Ele colocou um livro na mesa: Caminho da Raposa Branca.

Os olhos de Lindon brilharam com esta visão. Afinal, ele havia conseguido. Ele esperava que a imortal o devolvesse à realidade, mas seu destino ainda fluía, vindo em imagens cada vez mais rápidas.

Ele viu uma versão de si mesmo, anos mais velha, receber uma insígnia de Cobre com lágrimas nos olhos. O Primeiro Ancião sorria de orgulho.

Sua irmã liderou os membros do clã Wei para lutar ao redor de uma carruagem, enquanto membros do Kazan de armadura lutavam. Ela cobriu o rosto de um homem com chamas da Raposa, em seguida, enfiou a espada no estômago de um outro e a deixou lá. Kelsa abriu a porta da carruagem, revelando uma caixa finamente trabalhada. Sua expressão brilhava.

Mais anos se passaram e Kelsa recebeu uma insígnia de Jade do próprio Patriarca Sairus. Ela nem parecia ter trinta anos ainda. Lindon e sua família a aplaudiam em meio a multidão, embora seu pai parecesse ter mordido algo azedo.

Um tempo desconhecido depois, Jaran saiu de fininho de sua casa no meio da noite enquanto sua esposa dormia. Ele mancava com uma bengala, mas levava consigo um sobretudo e uma espada.

O estômago de Lindon se encolheu.

Os três membros restantes da família Shi, vestindo túnicas funerárias brancas, agruparam-se em torno de uma placa de ferro com o nome de Wei Shi Jaran. Seisha acendeu a vela sozinha.

Mais anos se passaram silenciosamente, e Lindon se viu sentado na beira de um telhado sob o céu estrelado, lado a lado com uma garota que ele ainda não conhecia. Ela tinha um sorriso largo e aberto. Ele a passou uma garrafa e ela bebeu.

Agora eles estavam juntos no Salão dos Anciãos, ambos vestindo vermelho, com uma fita branca ligando a mão de um a do outro. O Primeiro Ancião disse algo e todos riram, mas essa visão – Lindon olhava apenas para sua esposa.

O Lindon do presente sentiu seus olhos umedecerem e rapidamente os enxugou. Ele não deveria mostrar lágrimas a uma imortal celestial, mas… Inanimados não tinham permissão para se casar.

O tempo passou em um piscar de olhos e ele se viu circulando madra em uma posição meditativa ao lado de seu filho. Se viu aplaudindo sua filha enquanto ela conjurava a chama da Raposa pela primeira vez. Se viu colocando chá para sua esposa.

O destino, ao que parecia, era bom para ele. Foi por isso que a mensageira desceu dos céus? Para mostrá-lo as recompensas de uma juventude sofrida? Nesse caso, ele agradecia tal sofrimento.

Ele se viu envelhecer e seus filhos crescerem.

Então o Vale Sagrado entrou em colapso.

A imagem passou tão rápido que ele quase não percebeu. Uma criatura monstruosa se erguia acima das nuvens e caminhava através das montanhas, destruindo e soterrando o vale. Tudo sumiu em um instante.

E então Lindon voltou à realidade, diante da mulher de armadura branca. Seu cabelo verde flutuava atrás dela, e as linhas fantasmagóricas que iam das pontas dos dedos ao crânio cintilavam como estrelas sendo engolidas. Ela o observou com a mesma expressão de sempre, embora agora ele visse um toque de pena em seus olhos.

Suas bochechas estavam molhadas de lágrimas e ele sentiu como se seu peito estivesse vazio. “Eu… meu futuro, eu…”

“Não o seu futuro,” ela disse. “O destino é apenas uma direção. Essa é a direção que sua vida teria tomado, como um rio correndo colina abaixo, se Li Markuth não tivesse intervido. É assim que sua história está destinada a continuar e como está destinada a terminar.”

“E agora, você… desfez o que ele fez. Isso ainda é o que vai acontecer comigo?”

Seu sorriso era simpático e a pena em seus olhos se aprofundou. A compaixão dela o assustou quase tanto quanto as visões, porque isso significava que ela sabia. “É um bom destino. Você só morre depois de uma vida plena e rica.”

“E então minha casa é totalmente destruída!” Ele nunca havia considerado o Vale Sagrado como sua casa antes. O Vale Sagrado era o mundo inteiro.

“Nem todos os fios serão cortados. Alguns sobreviverão e irão se juntar à potências maiores do mundo.” Ela alcançou suas linhas de fumaça cinza. “É por isso que tiro as memórias, Wei Shi Lindon. O destino não se importa com emoções, ele apenas é.”

“Como eu conserto isso?” Lindon perguntou.

Os dedos de Suriel paralisaram onde estavam.

 Tomando isso como incentivo, Lindon continuou. “Tem que haver alguma maneira de consertar isso. Se o destino é apenas uma direção, então a direção pode ser alterada. Tem que haver alguma coisa… artes sagradas, ou arma, ou…” Lindon ainda podia sentir as incontáveis ​​toneladas de terra fria pressionando sua família. “Se eu fosse forte como você, poderia mudar as coisas. Este aqui está implorando a você. Por favor.”

Olhos roxos o observavam e o avaliavam. A mão dela se afastou das cordas esfumaçadas e ela andou um pouco ao redor dele, como se o considerasse de um novo ângulo.

A imortal olhou para seu ombro esquerdo. Ele não conseguia captar nada em seu rosto que permanecia agradável e impassível. “Suriel solicitando liberação para transporte não acoplado dentro da Iteração Um-um-zero. Resposta verbal, por favor.”

Uma mulher surgiu em seu ombro em forma de uma boneca feita de fumaça cinza. Isso não o surpreendeu muito; Os Forjadores da Raposa Branca criavam ilusões mais sólidas do que essa todo dia. O fantasma falou com a mesma voz neutra que ele tinha ouvido antes. [Confirmado. Consultando controle do setor.]

O silêncio reinou enquanto o fantasma esperava por uma resposta, mas Lindon foi pego por outro detalhe: a mensageira celestial chamava-se Suriel. Ele nunca tinha ouvido o nome antes, mas ele o guardou na memória como um pergaminho nos arquivos do clã.

[Autorização concedida.]

“Eu gostaria de fazer um passeio,” Suriel disse, olhando para Lindon.

[Com que propósito?]

“Estou procurando combatentes.”

[Permitido.]

Suriel estendeu uma mão coberta com armadura no topo da cabeça de Lindon. “Prepare-se”, disse ela. “Não tenha medo.”

Antes que ele pudesse perguntar do que deveria não ter medo, eles desapareceram. Um padrão intenso de luz azul o envolveu, devorando todas as outras visões. Era como um cobertor tecido com milhões de fios e cada fio fosse um tom distinto de luz azul. Seus ouvidos zumbiram com um ruído avassalador… mas apenas por um instante.

Então o cobertor caiu e eles chegaram no meio de uma corte real como ele nunca havia imaginado. Lanternas seguravam joias douradas brilhantes cem metros acima, e a sala se estendia tanto que desaparecia em qualquer direção. Lindon estava ao lado de Suriel, os dois parados no meio de uma vasta multidão de homens e mulheres com intrincadas vestes formais. Cada um dos Anciões usava uma fortuna em jade, ouro e metais exóticos que Lindon não conseguiu identificar. Alguns tinham bestas sagradas com eles – uma serpente vermelha enrolada em um braço aqui, um tigre de duas cabeças ali.  Ele podia sentir suas riquezas e autoridade pairando no ar; essas eram pessoas que poderiam executá-lo com um gesto.

Ele caiu de joelhos, mesmo quando o fantasma disse, [A Corte das Nove Nuvens.]

Suriel estalou os dedos, e ele se viu gentilmente levantado, embora nada o tocasse. “Eles não podem nos ver a menos que eu permita.” Ela mesma ficou parada com as mãos cruzadas na cintura, olhando para frente como se todo aquele luxo não pudesse atrair seu interesse por um momento que fosse.

Lindon olhou ao redor, preparado para cair de joelhos a qualquer segundo. Na verdade, ninguém na multidão sequer olhou para eles.

Este é o poder de um imortal. Mesmo com apenas um pequeno pedaço desse poder, ele poderia fazer qualquer coisa.

Uma escotilha no teto se abriu e uma nuvem cintilante de arco-íris desceu. À medida que se aproximava do chão, ele viu que alguém estava controlando a nuvem: uma menina de talvez dez ou onze anos, toda envolta em penas de pavão brilhantes. Seu cabelo era de um vermelho impossível, e ela examinava os Anciões como se estivesse olhando para seus súditos.

[Rainha Luminosa Sha Miara,] disse o fantasma. [Caminho da Resplandecência Celestial.]

A garota estendeu a mão e forjou uma espada arco-íris ofuscante. “Ajoelhem-se”, disse ela, e o mar de pessoas se ajoelhou. Lindon teve que se concentrar muito para não fazer o mesmo. A lâmina irradiava poder e autoridade, de tal forma que parecia afetar sua alma diretamente.

Suriel acenou com a cabeça para a garota. “Sha Miara herdou seu madra de uma linhagem nobre que remonta ao nascimento deste mundo. Em três dias, ela usará aquela espada para afundar uma frota de barcos das nuvens, salvando sua capital de um ataque aéreo. Se você tivesse o poder dela, você poderia salvar o Vale Sagrado.”

Lindon olhou para a garota ruiva e sua espada arco-íris. Ele nunca tinha ouvido falar dessa “Corte das Nove Nuvens.” até porque ninguém havia deixado o Vale Sagrado por cem gerações. Havia um panorama desolador além das montanhas, um pesadelo vindo dos infernos mais profundos, diziam todos os livros que ele leu.

“Onde ela está?” Lindon perguntou. Ele poderia ser capaz de recrutá-la, ou implorar sua ajuda, se não pudesse aprender os segredos de seu treinamento.

Suriel deu a ele um olhar de soslaio através da cortina de seus cabelos verde escuro. “Se você caminhasse por toda a extensão do Vale Sagrado de ponta a ponta, teria que fazer isso mais de cem vezes—” [Cento e quatorze vezes], disse o fantasma.

“- cento e quatorze vezes para alcançar a fronteira externa do país dela. A Corte das Nove Nuvens. fica no País das Nove Nuvens, pelo qual foi batizada, e esse país é quatrocentas vezes… ”

[Trezentas e noventa e quatro vezes], disse o fantasma. “Resposta verbal não necessária para correções de cálculo. Trezentas e noventa e quatro vezes maior que o Vale Sagrado. Você nunca conseguiria chegar lá. Aqui, seu destino é uma certeza absoluta. Se você tentasse um milhão de vezes ir para a Corte das Nove Nuvens com seu nível de cultivo atual, você morreria antes de alcançá-la um milhão de vezes.”

Ele começou a pedi-la algum conselho quando o flash azul veio novamente, e então eles estavam parados no ar sobre um oceano sem fim. Quando Lindon viu as ondas cinza-ardósia se agitando sob seus pés, o ar escapou de seus pulmões e ele se jogou sobre os ombros blindados de Suriel antes de cair.

Ela se manteve de pé perfeitamente equilibrada com todos os fios de cabelo no lugar, enquanto uma força invisível o arrancava de seus ombros e lhe colocava ao lado dela. Seus pés estavam firmemente plantados no ar. No ar. Ele não podia confiar nisso. Seus instintos tinham certeza de que ele cairia a qualquer segundo.

“Não tenha medo,” ela lhe lembrou novamente.

[O Mar Irrastreável] o fantasma anunciou, e então eles caíram. Seu estômago embrulhou enquanto ele afundava no oceano. Lindon entrou em pânico quando a água se fechou sobre ele, agitando os braços enquanto fechava os olhos com força e prendia a respiração. Ele aprendeu a nadar no Rio do Dragão, como qualquer criança Wei, mas raramente a água ia mais alta que seus ombros.

“Respire”, Suriel ordenou, e Lindon percebeu que ainda estava seco. Ele abriu os olhos, mas quase os fechou novamente. Além da bolha de ar em torno dele, a imortal, e seu fantasma de estimação, a água se estendia infinitamente em todas as direções. A luz brilhava acima deles, cada vez mais distante, enquanto eles mergulhavam sempre mais fundo na escuridão.

Lindon finalmente recuperou o equilíbrio, forçando-se a respirar normalmente e a não se agarrar à mulher de armadura branca como se ela fosse uma jangada. Ela parecia estar tratando isso como nada fora do comum, então ele se aproximou dela e acabou ficando muito, muito perto. Ele não estava apenas confiando nela para salvá-lo, ela era a única outra pessoa neste mundo de águas negras.

Enquanto caíam, Lindon viu que eles não estavam realmente sozinhos. Outra pessoa estava ao lado deles, um homem afundava na água como se seus ossos fossem feitos de chumbo. O estranho era uma massa de músculos, seus olhos dourados brilhavam e ele tinha os braços cruzados como se esperasse impacientemente para alcançar o fundo do oceano. Enquanto eles afundavam juntos na escuridão, o fantasma falou novamente. [Northstrider. Caminho da Fome Profunda.]

A absoluta escuridão abaixo deles mudou e Lindon deslizou para mais perto de Suriel. A cabeça de um dragão emergiu da escuridão, seguida pelo corpo de uma serpente que se enrolava infinitamente. Essa coisa se entendia por quilômetros e suas mandíbulas se abriam em um túnel rosa forrado de dentes.

Northstrider desdobrou os braços, revelando mãos enluvadas em escamas negras. Com uma mão ele agarrou uma presa maior do que ele mesmo, mas o ímpeto do monstro o empurrou para além de Lindon. Uma parede de escamas passou por ele, bloqueando todo o resto. “Northstrider consome bestas sagradas nos lugares mais profundos do mundo”, disse Suriel. “Ele leva consigo o poder deles para a superfície. Ele poderia destruir o Vale Sagrado por conta própria… e você poderia salvá-lo, se tivesse habilidades e poderes como os dele.”

Ela já havia dito isso, mas havia retido a parte mais importante. “Honrada imortal, como? Eu sou um Inanimado. Onde eu poderia aprender tais habilidades?”

Ele esperava que ela respondesse, mas temia que ela considerasse tal coisa impossível.

Ela sorriu para ele como se conhecesse seus pensamentos, e outro flash azul os levou embora.

Dentro de uma taverna comum feita de toras ásperas, oito pessoas em intrincadas armaduras douradas riam e brindavam suas taças. Uma mulher jogou um escudo de ouro para baixo, dizendo algo com as sobrancelhas levantadas. Um homem tirou o capacete, revelando teu um olho vermelho no centro da testa. [Cidade Chi Ning Ocidental. O Império dos Oito Homens. Caminho da Lança Óctupla.]

“Esses oito se autodenominam um império porque conquistam tudo, onde quer que passem”, disse Suriel, caminhando pela sala. Ela deixou sua mão vagar atrás dela, como se quisesse passar os dedos brancos cobertos de armadura sobre os homens e mulheres locais, mas nunca tocando em nada. “Até agora, eles não foram derrotados. Eles poderiam salvar facilmente o Vale Sagrado, assim como você, se ganhasse um lugar entre eles. Suas armaduras são o cruzamento entre um Remanescente e uma construção, e quando um deles morre, eles a passam para um sucessor.”

“Eles são todos Ouro?” Lindon perguntou. Ele não tinha visto ninguém fora do vale usar insígnias, mas supôs que a armadura poderia servir a um propósito semelhante.

Suriel parou com a palma da mão sobre um membro do Império dos Oito Homens, uma mulher de cabelo amarelo deitada de bruços sobre uma mesa, roncando. “Larian foi criada em uma família nobre. Seu pai não a deixou brincar com as outras crianças até que ela atingiu o nível que você conhece como Ouro. Quando ela tinha seis anos, ela o fez. Hoje, um exército de dez mil artistas sagrados Dourados não poderiam arranhar sua armadura.”

Larian grunhiu em seu sono.

O cobertor de luz azul caiu sob eles novamente, mas desta vez continuou. Ele e Suriel vagaram por um ofuscante vazio safira. Ela continuou na mesma posição – braço estendido como se fosse abençoar algo, seu rosto ainda desumano, cabelo verde e armadura branca perfeita. Sem se virar, ela falou. “Você tem vinte, talvez trinta anos antes que o desastre aconteça.”

[Uma média de vinte e oito anos, sete meses e quatro dias,] o fantasma colocou.

“Resposta verbal não necessária.” Ela se virou para encará-lo, o braço ainda levantado. “Eu mostrei a você alguns dos artistas sagrados mais poderosos do mundo que seguem três Caminhos Sagrados muito diferentes. O que eles têm em comum?”

“Eles são incrivelmente fortes”, disse ele. Ele não tinha visto muito da garota na corte ou dos oito na taverna, mas o homem lutando contra um dragão marinho com apenas suas duas mãos nuas definitivamente tinha chamado sua atenção. A expressão de Suriel não lhe disse nada, mas ela virou a palma da mão para cima. “Eles não têm nada em comum, exceto o compromisso. Cada um deles tem motivações diferentes, objetivos diferentes, níveis de talento diferentes, mas todos eles buscam as artes sagradas com dedicação absoluta.”

Lindon encontrou o olhar dela com determinação, erguendo-se em toda sua altura. Ele era mais alto do que ela, ele percebeu, embora isso o fizesse se sentir de alguma forma errado. “Eu sou dedicado.”

“É mesmo??” Seus olhos roxos estavam frios e firmes, seus lábios ainda pareciam uma escultura.  “Cada um desses artistas sagrados arriscou sua vida, renunciou ao orgulho, suportou espancamentos e humilhações públicas. Eles sacrificaram o conforto por uma vida de brutalidade e dor. E nenhum deles construiu seu poder, saindo do nada, em apenas trinta anos.”

“Eu conseguirei.”

“Nem mesmo eu havia atingido o nível deles em trinta anos.”

Agora ele não estava tão confiante.

“Seu primeiro passo, se você deseja dá-lo, começa hoje. Você tem que abandonar sua família e deixar o Vale Sagrado o mais rápido possível. Não há nada aqui para você.”

“Eu posso fazer isso,” ele disse sem hesitação. Ele estava preparado para isso desde que ela lhe mostrou a garota na Corte das Nove Nuvens. Doeria, mas sua família o encorajaria se soubesse que ele estava viajando para praticar as artes sagradas.

“Não, você não pode. Não sem ajuda.” A luz azul desapareceu, deixando-os flutuando a milhares de metros no ar. Quatro montanhas os cercavam: uma coroada por luz, uma repleta de árvores roxas, uma feita de pedra vermelha e outra envolta em um rio corrente.

Esta era sua casa, mas ele nunca tinha visto o Vale Sagrado dessa perspectiva antes. Parecia tão… pequeno.

Suriel examinou o local como um juiz. “Pelos padrões do mundo exterior, qualquer pessoa abaixo do Ouro é considerada impotente. Indigno de ser chamado de artista sagrado. Sua única chance, e é uma chance pequena, é deixar este lugar onde o estágio da Jade é o máximo onde se pode chegar.”

Se eu for embora, poderei…” Ele estava com medo de perguntar, com medo de que a resposta fosse não.

“Poderei me tornar um Ouro?”

“Você vai ter que se tornar”, disse ela, seus olhos ainda na paisagem. “É aí onde você deve começar.”

Abandonar sua casa era um pensamento triste, e ele não podia negar sentir uma onda de medo. Ainda assim, sua alma vibrava com a ideia.

Era como se Suriel lhe tivesse dito que ele poderia se tornar um imortal celestial e viver nos céus. Ele era capaz de alcançar não apenas Jade, mas um nível além do Ouro. Isso era como um sonho tão brilhante e terno que ele quase não ousaria sonhá-lo.

Na verdade ele nunca pensou em algo tão ousado… mas as palavras de Suriel eram aquelas do próprio destino.

Lindon não podia cair de joelhos no ar, mas ele, mais uma vez, se curvou profundamente. “Honrada imortal, este aqui implora mais uma resposta de você. Como devo deixar o vale?”

Suriel acenou com a mão e quatro luzes verdes brilharam como faróis na visão de Lindon. Uma em cada um dos picos sagrados, queimando como fogueiras esmeraldas. “Há uma saída em cada um dos picos, guardada por uma das Escolas.” Ela hesitou por um momento, como se procurasse uma memória específica. “Mas sair será muito difícil. Se houver uma maneira… ”

Ela olhou para o fantasma em seu ombro, que respondeu quase instantaneamente. [Nove vírgula oito quilômetros a noroeste.]  Um ponto menor de luz verde apareceu nas encostas do Monte Samara.

A bolha invisível que os continha se moveu rapidamente, e o corpo de Lindon estremeceu com o instinto de se proteger, mas Suriel falou como se recitasse um poema. “Há um milhão de Caminhos neste mundo, Lindon, mas qualquer sábio dirá a você que todos eles podem ser reduzidos a um. Melhore a si mesmo.”

Lindon ainda estava um pouco preocupado em ofender esta visitante de outro mundo, mas se atreveu a dizer: “Isso não parece ser o suficiente.” A montanha se aproximava cada vez mais. “Esse é o meu caminho há mais tempo do que você acreditaria. Você acha que alguém se atreve a atacar minha terra natal?”

Perto do pico da montanha, onde pedaços de neve ainda existiam apesar do calor do verão, e onde a enorme auréola de luz parecia perto o suficiente para ser tocada, havia um abismo profundo. Sem hesitar, Suriel para lá.

No fundo do abismo, havia uma garota com a aparência esguia e irregular de um guerreiro errante. Ela talvez tivesse a idade de Lindon e pareceria ser proveniente do Vale Sagrado: pele clara, cabelo preto e olhos escuros, características presentes em praticantes de qualquer um dos clãs do vale.

Mas as vestes de artista sagrado que ela usava eram pretas, nenhum clã ou Escola usava essa cor, que ele soubesse, e ela carregava uma espada em seu quadril… mas não tinha nenhuma insígnia. Seu cabelo era absolutamente reto, como se cortado com uma navalha, e ela usava uma corda grossa e vermelha enrolada em volta da cintura como um cinto. Ela obviamente estava passando por momentos difíceis: suas vestes estavam rasgadas e manchadas, seu cabelo desgrenhado e emaranhado, cada centímetro de sua pele estava coberto por camada após camada de cicatrizes finas como navalhas. A maioria delas devia ter anos, mas algumas eram obviamente recentes. Ela encaava a morte abaixo do abismo, segurando firmemente sua espada com ambas as mãos.

A princípio, Lindon pensou que a garota estivesse olhando para ele. Mas um olhar para trás revelou a verdade. Ela tinha sido encurralada por seus inimigos. A Escola da Glória Celestial do Monte Samara vestia branco e ouro, e cada um desses rapazes e moças tinham insígnias de Ferro em volta do pescoço. Havia oito deles – dois com lanças, dois com espadas, dois que carregavam redes pesadas e dois cujas mãos brilhavam com a luz.

[Monte Samara,] o fantasma anunciou. [Yerin, discípula do Sábio da Espada. Caminho da Espada Infinita.]

As botas de Suriel rangeram na neve enquanto ela caminhava para frente, embora não tivesse deixado pegadas. “Ela pode não ter a habilidade de salvar o Vale Sagrado, mas pode ajudá-lo a sair dele. Com a orientação dela, vocês dois podem deixar este vale vivos. Ela também tem um destino que precisa ser mudado.”

A garota deu um passo à frente para lutar.

O flash azul brilhou e, um instante depois, eles estavam no meio da arena do Festival de Sete Anos, mas Lindon guardou a imagem da garota vestida de preto em sua mente. Yerin, discípula do Sábio da Espada. Ela era sua chance de sair dali. A Escola da Glória Celestial nunca lhe permitiria ter acesso à montanha, o que significava que ele teria que encontrar outra maneira de chegar lá.

Suriel ergueu-se no ar novamente, examinando os artistas sagrados congelados abaixo dela com a sua expressão agradável de sempre. Ela falou com Lindon sem olhar para ele. “Se eu deixar você manter suas memórias, isso mudará seu destino. Sua vida será mais difícil e provavelmente mais curta. Essa é sua última chance. Você quer esquecer ou lembrar?”

Ele deveria gastar mais tempo considerando uma decisão tão importante, mas já havia decidido. “Eu nunca escolheria te esquecer, honrada imortal,” Lindon disse com uma reverência. “Você restaurou minha vida.”

Ela sorriu com as palavras dele, embora ainda examinasse o quadro imóvel abaixo dela. Seus dedos moveram as cordas esfumaçadas em sua mão direita. “Então observe de perto. Esta é uma visão rara.”

Uma luz azul brilhou, cobrindo tudo, e o tempo correu ao contrário. Os Anciões Jade que corriam para o palco agora estavam voltando para seus assentos. O céu clareou. Os pilares desmoronaram so contrário, reconstruindo-se a partir dos escombros até que as ilusões do Ancião Whisper dançavam sobre eles novamente. Apenas aqueles que ela já havia consertado foram excluídos: o Patriarca, seu corpo reconstruído, ficou de lado até que ela apontou para ele. Como se carregado por fios invisíveis, ele subiu no palco, assumindo uma pose com as mãos para o alto. Ela já havia recuperado os donos das cabeças decepadas, pelo que Lindon era grato. Se ela o havia devolvido à vida, certamente faria on mesmo com a sua mãe.

Logo, o mundo estava como fora mais cedo. Antes que a realidade enlouquecesse e os lendários Ouros descessem do céu seguidos por mensageiros celestiais. Ela havia desfeito tudo. Dado a eles um novo começo.

Ele curvou-se novamente, pois não sabia uma maneira melhor de expressar sua gratidão. Ainda que vivesse mil anos, ele nunca seria capaz de pagar tal dívida. “Este aqui agradece cem vezes pela orientação, honrada imortal. Será que este aqui algum dia terá a chance de retribuir um pouco de sua gentileza?”

Em torno dele, o dia ainda passava ao contrário, enquanto as mãos de Suriel dançavam de acordo com alguma arte sagrada. Ainda assim, ela o respondeu, enquanto considerava sua obra. “Vou te dar um token para que eu possa te encontrar facilmente, aonde quer que você esteja e quem quer que você se torne. Quando chegar a hora, eu voltarei. Se você tiver sorte, poderá ascender a um mundo superior.”

“Você quer dizer os céus?” Lindon perguntou. “Com você?”

Suriel se virou para encará-lo, seus cabelos verdes caindo e emoldurando seu rosto pálido e, finalmente, o mundo parou. Desta vez, tudo estava como era há apenas algumas horas atrás: o Patriarca do clã Wei estava na arena, desaprovação podia ser lida em seu rosto. A multidão gritava nas arquibancadas. Wei Jin Amon agachou-se com sua lança, pronto para a batalha. Até o sol havia invertido seu curso e agora emanava um brilho dourado de final de tarde. Ainda assim, a mensageira celestial era o que mais se destacava, agora seus olhos roxos brilhavam ainda mais fortemente.

“Minha organização tem um nome para este mundo, Wei Shi Lindon. O chamamos de ‘Cradle’. É onde mantemos os bebês.”

Ela estendeu sua mão e deixou cair algo na mão dele: uma conta de vidro, ligeiramente maior que a unha de seu polegar, com uma chama azul de vela presa dentro. A chama queimava uniformemente quando ele girava o token nas mãos.

“Este é o meu token. Você não pode usá-lo para entrar em contato comigo, mas eu posso senti-lo em todos os mundos e além do tempo.”

“Desculpas, honrada imortal, mas… e se quebrar?” Afinal, era vidro.

Ela deu uma risadinha. “Ele não pode quebrar e não pode ser perdido, pois está amarrado a você pelas cordas do destino. Siga em frente, fique vivo, e eu virei visitá-lo quando você crescer o bastante.” Atrás dela, um portal se abriu em  camadas de azul sólido, como se estivesse sob a superfície de um mar brilhante. “Siga a Matriz, Lindon.”

Em um flash, ela desapareceu.

O som retornou rapidamente, assim como os sussurros abafados da multidão – eles se suavizaram por respeito ao Patriarca – ainda assim soavam como trovão aos seus ouvidos. Wei Jin Sairus baixou os braços, que haviam sido levantados para acalmar a audiência.

“Jovem Lindon, não há desonra se você se retirar do palco. Em vez disso, respeitaremos sua sabedoria ao ceder aos seus superiores.”

Recentemente, Lindon se perguntou se estava preso em um sonho. Agora a mesma sensação voltou com força total, pois tudo o que seus sentidos lhe diziam sugeria que ele nunca havia partido. Sua mãe andava pela arena, seus olhos fixos nele. Seu pai olhava carrancudo das arquibancadas, irritado porque o Patriarca havia colocado seu filho em tal posição. Kelsa estava sentada ao lado dele, sua raiva evidente era expressa na maneira como ela se sentou na beirada da cadeira.

Entre os dedos, ele sentiu uma bola de gude quente. Ele olhou para baixo e viu uma bola de vidro em torno de uma única chama azul de vela.

Se isso fosse um sonho, então era um enviado pelos céus.

Ele se afastou do Patriarca e fez uma reverência aos representantes das quatro Escolas.

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