Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 20

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Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 19
Cradle | Livro 1: Inanimado | Epílogo

Tradutor: John Art | Revisão: John Art, Dyonizio, Ryan e Pedro

 “Não tenho nenhum ressentimento contra você”, disse Whitehall, a expressão em seu rosto era muito mais fria do que qualquer coisa que uma criança pudesse ser capaz de produzir. “Na verdade, a garota nem mesmo precisa morrer. Eu quero apenas os tesouros do Sábio da Espada e nada mais. Aqui e agora, tendo os céus como minha testemunha, jurarei pela minha vida que deixarei vocês vivos. Além disso, também vou considerá-lo meu discípulo pessoal. O que quer que você seja, com certeza ainda não é um Jade, mas aos meus cuidados, poderá se tornar.”  Ele segurava a adaga de maneira firme, esperando que Lindon pegasse seu cabo.

Para vencer, tudo que Lindon precisava fazer era atrasá-lo enquanto Yerin absorvia o Remanescente de seu mestre. “Perdão, Ancião, mas parece que …” Ele pensou em dizer ‘este aqui’, mas este não parecia ser o momento para palavras humildes. “… Eu não tenho nenhuma razão para aceitar, pois o Remanescente está selado, e não estou tentando ser desrespeitoso, mas Yerin também irá te destruir em seguida.”

“Ela é mais poderosa do que qualquer Jade no Vale Sagrado,” Whitehall disse francamente. “Mas a batalha a enfraqueceu. Eu acredito que ambos temos chances iguais de vencer, mas, independentemente de quem o fizer, eu juro pela minha alma que primeiro destruirei seu núcleo. Inanimado ou não, você ficará verdadeiramente aleijado caso isso aconteça.”

Lindon estremeceu, embora tenha disfarçado ajustando seu manto contra o frio. Inanimados eram considerados aleijados, mas eles ainda podiam usar madra puro. Com seu núcleo destruído, seria como se ele realmente não tivesse espírito – ele não poderia trabalhar com inscrições rúnicas ou Remanescentes, e nenhum elixir o salvaria. Alguns artistas sagrados diziam que perder seu núcleo era pior do que a morte.

Ele precisava ganhar mais tempo.

“Yerin prometeu me levar para fora do vale,” ele disse lentamente. “Eu sou fraco há muito tempo e não vou me contentar em ter o nível medíocre de força que temos aqui.”

Os olhos de Whitehall se iluminaram, e seu aperto na adaga aumentou. “Exatamente. Esse é o coração que um artista sagrado deve ter.” Ele apontou para o em torno deles. “Mesmo este lugar foi construído em bases mais profundas do que já exploramos. Nossos Anciões continuam Jade porque sentem muito medo de arriscar o que eles têm e explorar este local mais a fundo. Eu não tenho.”

Um estrondo pode-se ouvir vindo do lado de fora, assim como o som de metal batendo em metal. A expressão de Whitehall endureceu. “Escolha agora. Junte-se a mim e erga-se entre seus semelhantes, e então partiremos juntos daqui, caso contrário lhe aleijarei e arriscarei lutar contra a Discípula da Espada.”

Lindon sentia orgulho de si enquanto analisava suas opções. Ele havia feito um juramento à Yerin, mas ainda não era nem mesmo um Cobre. Qualquer que fosse o preço que os céus lhe cobrariam, esse preço não seria a destruição de seu núcleo.

Mas ainda que ele estivesse apenas no estágio de Fundação, havia um Ferro nele que não iria se dobrar. Ele não era um covarde e não entregaria Yerin ao cativeiro. E, mais do que qualquer coisa…

“Esta é minha segunda vida,” Lindon disse. Ele se afastou da nuvem, equilibrando-se sobre os próprios pés exaustos. As sobrancelhas de Whitehall se arquearam, mas Lindon não se importou em convencê-lo. “Foi um presente dos céus e prefiro morrer a desperdiçá-lo.” Ele encolheu os ombros. “Pelo menos vou morrer tentando.” Ele se pôs diante de Whitehall orgulhosamente, cansado e fraco, sua mão vazia descoberta. Ele não tinha mais cartas, nenhum truque a fazer. Havia uma certa paz nisso.

O rosto de Whitehall se contorceu de desgosto, e ele jogou a adaga roubada no chão. “Lixo.” Foi tudo o que ele disse enquanto cobria a distância entre eles com um único passo, e então a palma de sua mão atingiu Lindon logo abaixo do umbigo.

No último instante, antes do ataque do Ancião, Lindon se lembrou que na verdade ele tinha mais uma carta a jogar.

A técnica de circulação de madra Coração das Estrelas Gêmeas vinha preparando seu núcleo há meses, mas ele nunca deu o passo final nessa técnica. Agora, enquanto Whitehall injetava seu madra flamejante no núcleo de Lindon, ele ativou a técnica. O Inanimado rasgou seu núcleo ao meio. A agonia era indescritível, ela era algo além de físico e seu grito sacudiu cada canto da Tumba do Ancestral. A energia de Whitehall inundou seu corpo. A Palma Vazia só era poderosa como técnica porque permitia a um artista sagrado afetar seriamente o núcleo de um inimigo no mesmo nível de cultivo. Um Jade não precisava de uma técnica do tipo para destruir o espírito de um Inanimado; ele simplesmente transbordaria o núcleo mais fraco com poder e o deixaria explodir sob a pressão gerada.

Mas se seu núcleo explodiu, Lindon não sentiu. A agonia de rasgá-lo em dois apagou tudo, pintando seu mundo de branco. Ele caiu no chão de pedra e deu as boas-vindas à dor.

Quando voltou a si, Whitehall havia dado apenas um passo para a porta. A pele no estômago de Lindon foi queimada onde o golpe do Ancião lhe atingiu e seu espírito circulou madra rapidamente por conta própria, tentando se livrar do madra invasor da Glória Celestial. Suas veias pareciam estar pegando fogo, mas mesmo isso foi um alívio comparado a ter seu núcleo destruído. E quando ele analisou seu núcleo…

Seu sentido espiritual mergulhou no centro de seu espírito, onde duas bolas fracas de luz flutuavam dentro, como estrelas branco-azuladas. Fracas, mas inteiras e ilesas.

Depois de apenas um piscar de olhos, ele entendeu o porquê: quando seu núcleo se dividiu, suas duas metades se mudaram de lugar. Agora seus núcleos estavam meia polegada para a esquerda e meia polegada para a direita de onde seu núcleo original ficava. Whitehall tinha errado. O madra do caminho da Glória Celestial entrou em seu corpo, mas isso apenas o queimou por dentro. Ele não se tornou um aleijado. Bom, não mais do que já era.

Lindon sabia não ter se tornado mais forte por ter dois núcleos, é claro e na verdade circular se tornaria duas vezes mais difícil a partir de agora. Mas ele tinha uma vantagem crucial: Whitehall não estava mais interessado nele.

E por mais forte que seu espírito de Jade o tornasse, ele ainda estava no corpo de um menino de oito anos. Reunindo forças das profundezas de seu espírito, vasculhando cada gota de madra, Lindon se levantou e se lançou pra frente. Antes que Whitehall pudesse reagir, Lindon agarrou uma cintura fina com as mãos.

E então ergueu o Ancião no ar.

Whitehall gritou incoerentemente enquanto Lindon cambaleava até a parede. Um sapato lhe acertou o nariz com um estalo, fazendo seu sangue escorrer pela boca. Lanças da Glória Celestial atingiram o teto pintado, os pilares, as paredes, mas nenhuma tocou Lindon. Um punho lhe acertou na lateral da cabeça e o mundo ao seu redor girou. Ele mancou para frente, esperando estar indo na direção certa.

Quando o chão sumiu debaixo dele, ele sabia que tinha acertado o caminho. Eles se lançaram pelo buraco na lateral da parede que Yerin havia acidentalmente aberto anteriormente.

Whitehall caiu para longe dele, tateando o ar com uma mão enquanto a outra disparava um flash de luz dourada. Seus olhos encontraram os de Lindon e ele se parecia lamentavelmente com um menino confuso e aterrorizado. Nesse momento Lindon não pôde se negar sentir um pouco de ansiedade, pois ele tinha caído várias vezes durante os últimos dias. Agora, porém ele aprendeu a esperar por isso. Desta vez, ele planejou sua queda com antecedência.

O Inanimado se agarrou na beirada de uma nuvem vermelha flutuante.

Lhe custou até sua última gota de força para trazer a Nuvem de Mil Milhas até lai e quando Lindon tocou sua superfície, ele desabou de fraqueza. Desta vez, o rapaz realmente não tinha absolutamente mais nenhum truque sobrando, nem madra, ou força. Até mesmo seus olhos estavam cobertos de lágrimas, seu nariz e boca cheios de sangue e ouvidos ensurdecidos por conta do vento forte. Lindon vagou como se estivesse em um sonho, sentindo nada além de dor e gratidão pela vida.

Sem ser guiada por seu espírito, a nuvem flutuava lentamente em direção ao solo. Centenas de metros abaixo dele, o corpo do Ancião Whitehall bateu nas rochas. Lindon enxugou as lágrimas dos olhos para ver melhor, horrorizado com a possibilidade de o Ancião sobreviver, mas então um Remanescente dourado se ergueu do cadáver do menino. Ele era um anão retorcido; um diabinho deformado como se desenhado por linhas amarelas brilhantes.

Seria poético, refletiu Lindon, se eu matasse um Jade apenas para morrer nas mãos de seu Remanescente.

Nem todos os Remanescentes eram maliciosos, mas Lindon tinha a suspeita de que o de Whitehall era. A criatura não se afastou, mas apenas ficou sentada nas ancas como um sapo, observando a nuvem de Lindon descer.

Aqui estava ele, sem mais opções restantes, esperando flutuar lentamente em direção a uma morte inevitável. Não era como ele havia imaginado morrer, mas esperava que a história chegasse até sua família. Eles ficariam chocados com o quão longe ele chegou.

Um peso se chocou contra a Nuvem de Mil Milhas, escurecendo a visão de Lindon, e então o mesmo peso caiu sobre ele, empurrando sua mochila em suas costas machucadas. Um gemido sufocado escapou de sua boca, pois sua respiração foi forçada a sair sob a pressão.

Yerin afastou seu manto externo de seus olhos, inclinando-se para olhá-lo de cabeça para baixo. Ela parecia… horrível. Lindon pensou que ela parecia meio morta antes, mas agora, com sangue fresco em seu rosto, ela parecia ter rastejado para fora de sua própria cova.

“Não caia”, disse ela, e Lindon seguiu seu conselho, abraçando a nuvem contra seu corpo. O madra dela preencheu a construção que voltou a voar. A nuvem parecia não querer subir, mas ela a forçou a fazê-lo, voltando para o penhasco com uma série de empurrões desajeitados. Finalmente, eles atravessaram o buraco na parede da Tumba e logo em seguida se deitaram no chão.

“Gratidão,” Lindon disse entre respirações. Ela ergueu a mão em reconhecimento… e um membro de aço se ergueu junto com ela. Parecia exatamente como uma das seis lâminas nas costas do Remanescente do Sábio da Espada, e agora pendia das costas de Yerin como uma perna de aranha.

“É assim que o estágio do Ouro se parece?” ele perguntou. Yerin começou a remexer em suas vestes, procurando nos bolsos. “Se minha memória não falhar, meu mestre me deixou…” Um instante depois, sua mão emergiu com uma insígnia de ouro maciço. No centro, havia uma imagem simples de uma espada. Ela deslizou a fita sobre o pescoço e segurou a insígnia, examinando-a.

Ele caiu de costas, sentindo um enorme alívio. Ele não tinha perdido sua vida, ainda. E agora tinha um Ouro ao seu lado.

“Você confia em mim agora?” ele perguntou. “Vamos dizer que meu nível de confiança em você é maior que zero”, ela respondeu, sentando-se e o novo membro em suas costas balançou. “O teste real ainda nem começou.”

Lindon esticou o pescoço, olhando para fora da porta e quase chorou. Três outras nuvens enferrujadas haviam parado, carregando homens e mulheres em túnicas brancas. “Oh, olhe,” ele disse. “E lá vamos nós, de novo.”

Yerin não pareceu ouvi-lo. Ela estava ajoelhada no canto da Tumba, ao lado de algo que ele não tinha notado antes: o corpo de um homem em vestes pretas. A pedra ao redor dele estava carbonizada em uma linha longa e negra e havia uma espada desembainhada ao seu lado. Sua lâmina era estupidamente branca.

Três vezes ela se curvou tão profundamente que sua testa tocou o chão, tudo isso enquanto o primeiro homem da Glória Celestial entrou correndo pela porta. Suas mãos brilhavam douradas e sua insígnia de Jade lhe definia como um Fortificador. Seus olhos enfurecidos pousaram primeiro em Lindon.

“Discípulo, relate!” Ele ordenou. Então Yerin se levantou ao lado do corpo de seu mestre. Ela havia deixado sua própria espada com ele e estava agora embainhando a dele. A lâmina de prata em suas costas se ergueu como a cauda de um escorpião, e ela virou o rosto cheio de cicatrizes em direção ao Ancião da Glória Celestial. Uma insígnia Dourada pendia em seu pescoço.

O Jade cambaleou para trás tão rápido que parecia ter sido chutado. Ele gritou para que os outros parassem, recuassem e cercassem a tumba. Lindon descobriu que só conseguia ficar tenso e com medo por pouco tempo antes de seu corpo ficar dormente. Yerin poderia assustar a Glória Celestial para longe da Tumba sozinha, e se não pudesse, não seria ele que o faria.

Portanto, ele estava livre para testar uma teoria que o incomodava há algum tempo. De sua mochila, ele retirou o broto de Lótus Estelar. Ele era branco pálido com listras rosas, o tipo de cor pura que ele normalmente associava à Remanescentes e suas pétalas haviam florescido somente até o meio do caminho, como se congeladas no meio do processo.

Ele o mordeu ao meio.

Tinha gosto de grama doce e ligeiramente amarga, mas se dissolveu como açúcar em sua língua. Ele o engoliu em segundos, cruzando as pernas e endireitando as costas em uma posição de circulação.

“Eles têm que puxar a cauda do tigre, não é?” Yerin disse. “Se eles quiserem sofrer mais cedo, ao invés de mais tarde, eu vou… o que você está fazendo?”

A energia do fruto espiritual—ainda seria um fruto espiritual se fosse o broto de uma flor comestível? Ele presumiu que sim—apareceu em sua mente como um branco brilhante tingido de rosa. Ela se dispersou em seu estômago, fluindo em torno de suas veias espirituais em um rio de luzes que faziam cócegas enquanto viajavam, e ao fazê-lo tentavam entrar em seu núcleo. Ou melhor, em seus núcleos.

Quando leu pela primeira vez o Coração das Estrelas Gêmeas, ele teorizou alguns usos para a técnica além da defesa. Ele não tinha sido capaz de testá-las sem dividir seu núcleo ao meio, mas agora poderia. Enquanto mantinha um núcleo bem fechado, ele direcionou o madra da Lótus Estelar para o outro.

O núcleo do lado direito ficou mais brilhante, mais forte, ao ser imediatamente nutrido pelo fruto espiritual. Houve um pequeno efeito imediatamente, mas muitos dos pontos rosa pálido permaneceram lá, fazendo cócegas de dentro para fora. Eles seriam digeridos nas próximas semanas.

Quando terminou de reunir a energia da Lótus Estelar em um núcleo, ele inspecionou o outro que, como previsto, estava totalmente limpo.

Lindon emergiu da circulação com um sorriso brilhante no rosto. Yerin riu dele. “Parece que você acabou de rasgar aquele ancião com os dentes.” Ele esfregou os dentes da frente e seu dedo ficou pegajoso de sangue, mas seu entusiasmo não diminuiu. “Eu consumi metade da Lotus Estelar.”

Uma lança dourada passou pela porta e Yerin se esquivou para o lado, empunhando a espada de seu mestre. “Você achou que agora era o momento oportuno para confundir seu núcleo?”

Lindon escalou a Nuvem de Mil Milhas, acenando para ela se juntar a ele. “Não estamos lutando agora e eu queria testar uma teoria.”

“Se a Glória Celestial quer que eu derrame um pouco mais de sangue, o farei com prazer.” Yerin caminhou até a porta aberta, carregando a lâmina pálida de seu mestre consigo.

Mesmo estando meio entorpecido, Lindon, entrou em pânico. “Temos que sair agora. Eles não vão nos seguir para fora do vale.” Ela não estava lhe ouvindo, então ele acrescentou: “O que seu mestre diria sobre jogar sua vida fora aqui?” Ela desviou de outra lança de luz, mas não saiu da Tumba. “Ele diria que se eu matasse um deles para cada um dos meus dedos, eu poderia morrer orgulhosa.”

Claro que ele diria uma coisa assim.

Lindon considerou uma série de abordagens. Seu primeiro instinto foi gritar com ela, lembrando-a de seu juramento. Ele considerou implorar, barganhar, até mesmo deixá-la ir e se arriscar fora do vale sozinho.

Calmamente, ele disse, “Por favor, não me deixe aqui para morrer.”

Ela se encolheu visivelmente enquanto um trio de Fortificadores da Glória Celestial subiu as escadas, suas mãos brilhavam como ouro. O aperto em sua espada mudou. Ela se inclinou para frente e depois para trás.

Com um rugido, Yerin moveu sua lâmina branca pela porta da Tumba. A energia incolor da espada pairava no ar na altura do pescoço, congelada no mesmo lugar enquanto ela se virava e corria na direção dele.

“Por mim, você pode apodrecer”, disse ela, empurrando-o em direção à nuvem e pulando na frente da mesma. “Mas que eu sangre profundamente se isso acontecer por culpa minha. Não deixarei ninguém para trás. Nem mesmo você.”

***

Na saída, Yerin cortou outro pilar. A Tumba do Ancestral gemeu, rachou e desmoronou lentamente pela falta de apoio. Enquanto iam embora, o teto se inclinou e desabou em um deslizamento de terra e escombros, atrasando os praticantes da Glória Celestial e enterrando o corpo do Sábio da Espada para sempre na tumba.

Eles voaram pelo outro lado do Monte Samara na Nuvem de Mil Milhas e, enquanto Yerin os guiava pelas encostas, Lindon mantinha os olhos na paisagem ao fundo. Era um oceano verde e ondulante, e de vez em quando alguma coisa colocava a cabeça para cima na copa das árvores como um peixe rompendo a superfície da água.

Ele se maravilhou com a visão, pois sabia ser o único do clã Wei a ter visto tal coisa. Ele agora estava numa terra externa ao Vale Sagrado.

“Se você já acabou com a metade daquela flor”, Yerin gritou para ele, “eu mesma vou dar um lar para a metade restante. Ela fará bem ao espírito de qualquer pessoa que a consuma.”

“Desculpas, mas preciso das duas metades. A outra metade foi apenas para um dos meus núcleos.”

“… você tem duas respirações curtas para explicar isso antes de eu te empurrar para fora da nuvem.” Então, Lindon falou sobre sua técnica de circulação, O Coração das Estrelas Gêmeas. A história toda acabou sendo longa, pois ele teve que explicar também sobre o fruto da Orus Ancestral, de sua luta contra a família Mon, de sua técnica da Palma Vazia e, eventualmente, do Festival de Sete Anos.

“Assim que encontrei este manual, tive uma ideia. Se eu pudesse separar dois tipos diferentes de madra em núcleos diferentes, talvez eu pudesse aprender dois Caminhos Sagrados!”

“Dois caminhos”, repetiu Yerin. Ela não parecia tão animada quanto ele. “Isso vai lhe custar o dobro do trabalho. Você está tendo problemas o suficiente seguindo apenas um. No seu lugar, eu não me desgastaria muito tentando seguir dois. “

“Sinto muito, você deve ter entendido mal. Eu não estou seguindo nenhum Caminho Sagrado. Eles não me ensinaram um. Até por isso eu estaria aberto para aprender um Caminho da espada, se você tiver algum tempo sobrando…” Ela se virou para ele, seu rosto cheio de cicatrizes e ainda manchado de sangue.

“É por isso que meu mestre teria matado os Anciões do seu clã.”

“Porque eles não me ensinaram um Caminho?”

“Vou te explicar isso aos poucos. Você me viu lançar madra da espada sólido contra a porta, não é? “

“Certo.”, disse ele. “Eu vi.”

“Que tipo de técnica você afirma que essa seja?”

“É uma técnica de Forjamento”, disse ele.

“E quando eu lanço madra para fora da minha espada?”

“Técnica Striker.”

“E quando eu invoquei a aura de todas as espadas do Salão dos Tesouros?” Essa era uma técnica de Modelador, e ele viu para onde essa conversa estava indo. “Eu sei sobre tudo isso. Alguns dos Anciãos do meu clã podem usar técnicas fora de sua disciplina.”

Ela acenou com a cabeça. “Já que você sabe, então me responda: se todos podem usar qualquer técnica, então de que importa a afinidade de seu espírito?”

Todos na verdade não podem”, disse ele. “A maioria das pessoas só pode aprender uma técnica se seu espírito tiver afinidade com ela.” “Será mesmo? Isso é alucinante para mim, pois o Coração das Estrelas Gêmeas soa como uma técnica clássica dos Fortificadores.”

Ele fez uma pausa, pois não tinha certeza. Os Fortificadores podiam usar seu madra para se tornar mais fortes e suas técnicas tinham a ver com o fortalecimento do corpo… mas o núcleo fazia parte do corpo.

“Aqui está outro enigma para você. Aquela Palma Vazia que você elaborou? Pra mim ela parece uma técnica Striker.”

“Ela tem o alcance de apenas alguns centímetros.”

“Então ela é uma péssima técnica Striker, mas o filhote de tigre ainda é um tigre. Veja, sabe esse teste que todos no Vale Sagrado adoram? Com a tigela de madra líquido? Esse teste está sendo completamente mal interpretado e está enchendo a cabeça de todo mundo que vive lá com mentiras.”

A respiração de Lindon estava ficando cada vez mais rápida até que parecia não conseguir respirar. “Esse teste não mostra o que você é. Apenas mostra no que você é melhor. Mostra por onde começar, não onde você vai terminar. Vamos supor que certa pessoa comece como Modelador, bem, parabéns e urras para ela, isso significa que ela terá que trabalhar muito duro para aprender as técnicas dos Fortificadores. Fora do vale, você não pode se autodenominar um artista sagrado até ter aprendido pelo menos o básico de todas as quatro disciplinas e absorvido seu Remanescente. Aos meus olhos, cada um dos Anciões do Vale Sagrado ainda está em treinamento.”

“Então… como eu poderia ser…”

“Inanimado?” Ela encolheu os ombros. “Nunca ouvi essa palavra antes de vir aqui. Você apenas começou dois passos atrás, essa é a sua situação verdadeira. Nada que valha a pena chorar. Algumas famílias ricas podem levar um bebê do estágio da Fundação para Jade com duas pílulas e meia. O que é realmente difícil é praticar seu Caminho Sagrado e me parece que você já está trilhando o seu.”

Por muito tempo, Lindon não conseguiu dizer nada. A verdade explodiu através dele, deixando-o entorpecido. Ele não precisava encontrar um Caminho próprio, pois ele já estava trilhando um. O vento lançou agulhas de gelo em seus olhos cobertos de lágrimas, e de repente ele estava mexendo na mochila em suas costas, desenterrando o manual de técnica do Coração das Estrelas Gêmeas.

O manual estava pela metade; o resto das páginas estava em branco. Enquanto Yerin perguntava o que ele estava fazendo e se estava chorando, ele pegou um pincel e um pote de tinta. Esperava-se que qualquer pessoa que fundasse um Caminho Sagrado fizesse anotações cuidadosas sobre ele, para transmitir seu conhecimento às gerações futuras.

Com cuidado, ele escreveu no topo da página:

O Caminho das Estrelas Gêmeas

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