Cradle | Livro 1: Inanimado | Epílogo

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Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 20

Tradutor: John Art | Revisão: John Art, Dyonizio, Ryan e Pedro

Informações solicitadas: status atual de Wei Shi Lindon.
Relatório inicial…

Wei Shi Lindon e Yerin, discípula do Sábio da Espada, deixam o Vale Sagrado nas costas de sua nuvem vermelha. Eles planejam se esconder e descansar antes de entrarem na floresta. Bestas sagradas do tamanho de edifícios rondam nas sombras e mesmo Yerin não tem confiança absoluta de que irá conseguir protege-los. Ela sabe que eles só sobreviverão se forem furtivos e rápidos e somente se nada der errado.

Ela não sabe que a Ruína Transcendente se ergueu no coração da floresta pela primeira vez em oitocentos anos. Suas recompensas atraem artistas sagrados que vivem a milhares de quilômetros dali… assim outras coisas, criaturas mais velhas e mais escuras que perambulam nas selvas circundantes.

DIVERGÊNCIA DETECTADA: a Selva Desolada,  

Ruína Transcendente. Continuar?
Divergência aceita, prosseguir com o relatório…

 

No pico do Monte Samara, um ancião aleijado da Glória Celestial, chamado Anses, vasculha as ruínas do que ele chama de Tumba do Ancestral. Seu orgulho foi pisoteado, o poder de sua escola foi questionado e agora parece que eles criaram para si um inimigo poderoso. A discípula do Sábio da Espada retornará, ele sabe, mais forte e com fome de vingança.

Mas, apesar de sua certeza, ele tem um medo profundo do deserto fora do Vale Sagrado. Ele não poderia sobreviver lá, e, portanto, acredita que ninguém poderia. Na sua opinião ela deve ter dado meia volta, e para onde mais ela iria senão para a casa de seu aliado, o Inanimado, Wei Shi Lindon? Ele manda uma mensagem para seus companheiros Anciãos, incitando-os a marchar com o resto de suas forças em direção ao clã Wei.

DIVERGÊNCIA DETECTADA: a destruição do clã Wei. Continuar?
Divergência aceita, prosseguir com o relatório…

 

Enquanto os membros da Escola da Glória Celestial escavam a tumba do ancestral, uma raposa das neves de cinco caudas do tamanho de um homem espera ali próximo. Ele não produz nenhum som ou cheiro, sua presença está mascarada tanto para a visão quanto para o espírito. Ele é uma besta sagrada ancestral, um dos habitantes originais deste vale, e só é visto quando deseja.

O Ancião Whisper tem seguido o Inanimado desde a intervenção de Suriel, a Fênix e Sexto Juiz do Tribunal dos Abidan. Embora não se lembre dos eventos anteriores à reversão temporal dela, ele percebeu os efeitos de seu envolvimento e acredita que Lindon seja favorecido pelos céus.

Ele observa os dois jovens artistas sagrados deixando o vale e, pela primeira vez em séculos, sente esperança. Talvez essas crianças, abençoadas pelos céus, salvarão o vale do retorno dos terríveis Dreadgods.

DIVERGÊNCIA DETECTADA: retorno dos Dreadgods. Continuar?

[Divergência negada], disse Suriel à sua Presença. [Relatório completo.]

***

Iteração 217: Harrow

Os relatórios chegaram a ela numa mistura de palavras, imagens e impressões, recuperadas por sua Presença e transmitidas a ela em um instante. Ela olhou para o passado de Lindon, seus arredores, sua educação e até mesmo seu futuro. Ele era uma distração interessante.

Sua Presença lhe disse que ele tinha dezessete por cento de chance de sobreviver à Selva Desolada, quatro por cento de chance superar o Ouro e zero vírgula três por cento de chance de ascender além de Cradle.

Mas em todos os mundos, em todas as milhares de variações da humanidade que o universo gerou, as pessoas sempre gostavam de apostar no azarão.

Ela voltaria aos relatórios mais tarde, pois ainda que ela os tenha compreendido instantaneamente, eles ainda ocupavam sua mente. Ela precisava se concentrar agora, para tratar a situação diante dela com devida gravidade.

Makiel estava chegando e o tratar com o Primeiro Juiz do Tribunal dos Abidan exigia toda a sua concentração. Seu cabelo tinha sido restaurado ao seu brilho esmeralda radiante, seus olhos agora eram de um roxo vivo. Ela flutuava na alta atmosfera, esperando, enquanto pedaços de fogo voavam do planeta e passavam por ela em direção ao espaço.

Este mundo não podia ser curado.

O vislumbre de uma textura azul e ondulada apareceu próximo a ela e alguém entrou na realidade. Não era Makiel, como ela já esperava. Este homem era jovem e compacto, sua pele era azul escura e ele tinha fileiras de chifres bem compactos no lugar de cabelos. Gadrael, Segundo Juiz e a leal mão direita de Makiel.

Ele estava vestido como ela, uma armadura branca perfeita que todos os Abidan em serviço usavam. O manto de Gadrael fluía de seus ombros como uma capa em chamas de puro fogo estelar, assim como o manto de Suriel pendia dos ombros dela. Em vez de linhas de correlação saindo de seus dedos como fitas de fumaça cinza que se conectavam à nuca de Suriel, ele carregava um círculo preto preso ao antebraço como um broquel (escudo) medieval.

Ele estava com sua arma preparada e pronta para uso. Ela também convocou a sua, uma haste azul de um metro de espessura, mas ele ergueu a mão. “Paz, sob a Matriz.”

Ela prendeu a arma na cintura. Gadrael não violaria uma trégua, mas ofereceu uma rápido demais. “Diga a Makiel que não o encontrei. Minha presença pode lhe dar um relatório completo.”

“Ele sabe. Ele o está procurando também, já que você permanece desmotivada.”

A farpa não a perturbou, mas o conteúdo de sua mensagem sim. Ela foi enviada para caçar Ozriel porque era a única dos Sete capaz de encontrá-lo sem ser morta na hora. Se ela lhe rastreasse, Ozriel falaria com ela.

Se Makiel o encontrasse, eles matariam um ao outro. Gadrael esperou que a realidade caísse sobre ela. “Ele pensou que isso a convenceria a procurá-lo, mas se tal coisa não a motivar…” ele se virou para o planeta em chamas. “… talvez isso o faça.”

O planeta abaixo deles se turvou e cintilou com estática visual, mesmo enquanto queimava. Continentes apareceram, desapareceram e reapareceram no oceano. A água subiu quilômetros no ar, se acalmou e caiu novamente. Uma cidade ergueu-se do oceano em ruínas e foi afogada logo em seguida.

Quando um mundo colidia com outro, esse era o resultado. O tempo, o espaço e a própria realidade se dobravam e se deformaram enquanto a Matriz tentava forçar a ordem durante o puro caos causado pela colisão.

“Que planeta é esse?” Suriel disse baixinho. Ela poderia ter apenas pensado a sua pergunta e sua Presença lhe responderia, mas queria que Gadrael também a ouvisse. “Iteração dois dezesseis, O planeta se chama Limite. A demolição estava programada o mais tardar para dois meses atrás, sua população já foi evacuada.”

Mas, sem Ozriel, não havia ninguém para demoli-lo, então agora Limite se chocou contra o planeta Harrow e o está arrastando para o vazio.

“Protocolos de quarentena?” ela perguntou.

“Eficazes. Eu mesmo implementei as paredes.” Portanto, nenhum outro mundo seria atraído para este desastre. “Só piora a partir daqui. Se não recuperarmos Ozriel, ou pelo menos a Foice, podemos perder tudo.”

Ele não estava errado. Este era o Setor Vinte e Um, mas se isso estava acontecendo aqui, então poderia acontecer dentro de poucos dias em qualquer outro lugar. Setor Treze, onde ela nasceu. Setor Seis, com sua rica história e belíssima arte natural. Até mesmo Setor Onze, com um-um-zero, Cradle.

Mundos importantes como Cradle, Haven, Sanctum e Asylum seriam protegidos. Mesmo no caso de colapso total do sistema, os Abidan iriam coletar e colocar em quarentena esses mundos, pois eram suas últimas fortalezas contra o caos infinito.

Mas em tempos como este, tudo poderia dar errado. Cradle pode até ser mais seguro do que qualquer outro lugar, mas não isso não quer dizer que ele fosse um lugar seguro.

“Reconhecido”, disse Suriel. “A designação zero-zero-seis, Suriel, aceita formalmente a tarefa de localizar e remover zero-zero-oito, Ozriel, sob censura”.

Gadrael acenou com a cabeça, sua expressão firme como granito. Sempre foi. A Matriz viraria pó antes que ele sorrisse. Suriel acessou a Matriz, desenhando fluxos de pura ordem ao seu redor enquanto se preparava para sair de Harrow, mas o outro juiz não a seguiu. Ele ficou em pé sobre o nada com os braços cruzados e escudo preto, encarando o mundo agonizante.

“Qual é a sua missão aqui?” Suriel perguntou.

“Misericórdia,” Gadrael disse.

Ela parou. Elos de azul em camadas invocados por ela voltaram à Matriz. Ela havia conhecido pacientes no passado que estavam longe demais para serem salvos e que o único conforto que ela poderia lhes oferecer era um fim indolor. Suriel se esforçou para se tornar mais forte, em grande parte, para que nunca tivesse que passar por isso novamente. Agora, nem mesmo a morte era uma barreira para sua cura.

Ainda assim suas habilidades não eram o suficiente.

“Um escudo serve para proteger”, disse ela. “Ele não é uma ferramenta apropriada para fazer isso.” Ela sacou sua arma. Gadrael, ainda de braços cruzados, acenou com a cabeça. Ela se perguntou se esse tinha sido o plano de Makiel o tempo todo, fazê-la enfrentar a realidade da situação ao sujar suas próprias mãos. Ainda assim, isso não mudaria nada, pois este era o seu dever.

Com o coração doendo, a Fênix ativou sua espada.

O FIM
Cradle: Volume um
Inanimado

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Nota: Esse é o fim do primeiro livro, o próximo começará a ser postado dentro de no máximo um mês porque assim eu tenho tempo de “refinar” a tradução até um nível que eu considere satisfatório. Espero que vocês estejam curtindo e se alguém quiser ajudar a revisar é só avisar por aqui ou pelo discord ^^

Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 20