Cradle | Livro 1: Inanimado | Cap: 19

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Tradutor: John Art | Revisão: John Art, Dyonizio, Ryan e Pedro

Enquanto o sol nascia, Lindon e Yerin voavam sobre o terreno acidentado do Monte Samara. Ela manteve a nuvem vermelha voando baixo e espalhando a neve sob eles enquanto se dirigiam ao norte, em direção à Tumba do Ancestral.

Ao mesmo tempo, Lindon se concentrava em não cair. Assim que encontrou uma posição minimamente segura ele lentamente começou a remexer em sua mochila, pois quando pousassem, eles talvez não tivessem tempo para analisar o que pegaram.

A própria Nuvem de Mil Milhas foi provavelmente o maior prêmio deles e Yerin insistiu que mesmo o madra de Lindon seria suficiente para movê-la, embora viajaria muito mais devagar do que agora. Segundo ela, nuvens como essa eram um meio de transporte valioso no mundo além do vale.

Haviam quarenta e oito selos espirituais numa pilha, e eles estavam preparados para usar todos no Remanescente do mestre dela. Mas se sobrassem alguns, eles os dariam vantagens preciosas contra outros Remanescentes no futuro. Ainda assim, era melhor não contar com isso.  O Sábio da Espada era a sua prioridade. O Broto de Lótus Estelar iria ajudá-lo a chegar ao Cobre quase que imediatamente e ele tinha que ficar constantemente se lembrando que seria tolice consumi-lo agora. A fruta ancestral de Orus havia levado dias para ser digerida e a Lótus Estelar provavelmente demoraria ainda mais. A última coisa que ele precisava era de algo em seu próprio núcleo o distraindo enquanto lutasse. Mesmo assim, ele desejava comer pelo menos uma pétala.

Em vez disso, ele se concentrou em observar Sylvan, A Semente do Rio. O pequeno espírito de chama azul dançava em sua caixa de vidro. O rio que corria dentro do pequeno tanque permanecia estável enquanto eles voavam, sem derramar ou espirrar, mas o espírito se encostou nas paredes de vidro para fitar a paisagem que os cercava.

Lindon tinha perguntado em que a Semente do Rio poderia ser usada, mas nem a própria Yerin sabia ao certo. Elas eram raras, ela lhe disse, e você deveria criá-las. Ou talvez plantá-las. De qualquer forma, ela tinha certeza de que valia mais dinheiro do que qualquer outra coisa que eles roubaram, incluindo a nuvem.

O anel parasita era como o broto de Lótus Estelar, no sentido de que eventualmente ajudaria Lindon a superar suas deficiências, mas não tinha uso imediato. Eles ainda tinham pegado a adaga de meioprata—seus pais possuíam algumas armas de meioprata, mas ele nunca teve uma —, já a Formação Fronteira da Raposa Branca era o tesouro menos valioso que eles haviam roubado. Essa formação foi difícil de obter e demorava muito para ser preparada, além disso um oponente poderoso o suficiente simplesmente a destruiria. Ele teve sorte de usá-lo apenas contra Kazan Ma Deret.

Sete tesouros. Eles representavam uma fortuna indescritível para um Inanimado do clã Wei, mas lhes olhando assim, eles eram quase decepcionantes. Ainda mais quando comparados com o que eles poderiam ter conseguido, se tivessem apenas mais um minuto naquele Salão dos Tesouros…

“Febre do dragão,” Da frente da nuvem, Yerin lhe disse.

Lindon deu um pulo, saindo de seus devaneios. “Dragão?”

Ela riu contra o vento enquanto eles saltavam sobre uma pequena rocha e voltavam a flutuar próximos ao solo novamente. “Isso é o que meu mestre diria. As artes sacras são caras e é preciso uma pilha de pílulas e tesouros para avançar seu cultivo. A ganância que se sente quando você só pensa em acumular mais riquezas, quase que cegamente, essa é a febre do dragão. “

O rosto de Lindon se aqueceu. Ela tinha visto através dele sem nem mesmo lhe olhar. “Não estou tentando ficar com a sua parte. Minhas contribuições empalidecem comparadas as suas. Mas alguns desses itens, creio eu, podem não ser adequados para alguém no seu nível.”

“Não, não me entenda mal. Estou queimando com essa febre. Eu estou fervendo para dar meia volta e limpar aquele Salão dos Tesouros do começo ao fim.”

Ele exalou, aliviado. “Essa é a maior fortuna que eu já vi e, por algum motivo, estou desapontado por ela não ser ainda maior.”

“Febre do dragão,” ela disse decisivamente. “Ajuda se você manter os olhos fixos em um objetivo. Pegue tudo o que puder, mas não fique cego para o que realmente importa, meu mestre costuma dizer—”, Ela parou. O vento assobiava. “Meu mestre costumava dizer que a distração mata mais artistas sagrados do que seus inimigos.”

Ele não podia ignorar aquela pausa. Nunca tendo sido treinado, ou tido um mestre, como ele se sentiria se seus pais tivessem sido tirados dele?

A visão de Suriel passou por sua cabeça, o Vale Sagrado sendo destruído e ele falou com verdadeira simpatia. “Ele deve ter sido um grande homem. Mesmo no mundo externo.”

“A essência da questão é que ele só veio ao vale por minha causa”, disse ela. Ele não conseguia ver seu rosto, mas de repente mal conseguia ouvir suas palavras por conta do vento. “Não se importou em vir sozinho, era apenas um lugar seguro para eu treinar. Mas não importa o quão forte você é quando é envenenado durante o sono.” No final, sua voz era dura como o aço frio.

“Eu gostaria de tê-lo conhecido”, disse Lindon. Era verdade, mas também era o que ele deveria dizer a um parente em luto.

“Ele poderia ter lhe permitido se juntar a nós, se você o pedisse. Meu mestre poderia ser suave assim, mas antes, ele teria matado os Anciões de seu clã pelo que eles estavam ensinando a você. “

Lindon se inclinou sobre seu ombro, tentando captar um vislumbre de sua expressão. “Perdão, mas … o que eles me ensinaram?” Ele bateu nas costas dela quando a nuvem parou repentinamente. Um enorme edifício cúbico apareceu à distância, com colunas enormes e um mural de pedra com quatro feras travando uma batalha. Todo o edifício se localizava à beira de um enorme penhasco, como se estivesse ali desde o início dos tempos.

“A Tumba do Ancestral”, disse Yerin, e saltou da nuvem. “O Mestre ficou hospedado na Escola da Glória Celestial em particular só por isso. Dizem que essa tumba leva a algum labirinto onde nem mesmo meu mestre poderia pisar com facilidade.”

Sua mão estava pousada em sua espada e suas vestes negras retalhadas se moviam ao vento. Ela puxou a insígnia roubada e a jogou no chão. “Eles o envenenaram e o esfaquearam, então meu mestre tentou se esconder na Tumba, morrendo a dois passos da porta.”

Ela olhou para ele, mas seu rosto cheio de cicatrizes não era tão frio quanto o de alguém em busca de vingança, imaginou Lindon. Sua expressão estava marcada pela dor. “A última coisa que ele me disse foi para terminar de formar meu Caminho. Ele não sabia que me deixaria seu próprio Remanescente, mas… ele deixou. Ninguém mais tocará em seu espírito além de mim, e é isso.”

Lindon examinou a tumba gigante. Dois guardas haviam se revelado nos degraus da frente e certamente já teriam visto a Nuvem de Mil Milhas. Um deles ergueu a mão, enviando um flash de luz dourada pelo ar. Um sinal.

“Não há muito que eu possa fazer em uma luta direta,” Lindon disse honestamente. “Mas eu vou te ajudar no que puder.”

Yerin deu um tapinha em seu ombro. “Sim, estou convencida de que você vai, pois você tem menos escolha do que um boi amarrado.”

Ele pigarreou. “Eu teria lhe ajudado mesmo sem o juramento.”

“Há uma chance de que sim, mas agora você não vai desistir no meio do caminho e implorar por sua vida.”

Lindon estremeceu com isso. “Não há razão para isso. Posso ser fraco, mas não sou um covarde.”

Ela começou a aquecer seus músculos para a luta e sorriu para ele por cima do ombro. “Não podia saber disso quando te fiz jurar, não é? Eu confio mais em você agora. Um pouquinho mais.”

Pelo menos ela não havia preparado outra armadilha para ele. Lindon suspirou e começou a dividir os artefatos da Glória Celestial em diferentes bolsos. Antes ele os enfiou em sua mochila sem pensar, mas agora ele poderia precisar usá-los rapidamente.

Um dos guardas ativou uma construção dourada em forma de ovo que parecia ser igual à que o Rahm havia usado e o outro estava começando a erguer paredes de vidro tingido de ouro.

“Agora, Wei Shi Lindon, vivemos através disso, ou morremos juntos.” Yerin decolou em uma explosão de neve, avançando com uma velocidade que apenas um corpo de Ferro poderia alcançar.

Quando ela quebrou a primeira parede de vidro, enviando um vento quente pra todo lado, Lindon continuou a empacotar os tesouros. Ele não poderia ajudá-la até que a luta acabasse, e ele não iria correr de cabeça para a morte. Se os céus considerariam isso uma violação de sua palavra, então que fosse.

A Nuvem de Mil Milhas não se comprimia totalmente, e ele teorizou que fosse necessária uma caixa especial para isso acontecer. Já que ele não tinha uma, ele a alimentou com um fio de seu madra e a arrastou atrás de si enquanto abria caminho pelas pedras congeladas em direção a Yerin. A construção o seguiu como um pássaro obediente.

Um flash de luz criou um rio de vapor na neve e uma parede de vidro apareceu para bloquear o contra-ataque de Yerin. Ela estava avançando constantemente, mas os dois guardas e o Constructo estavam usando todos os truques possíveis para mantê-la longe deles. Quando ela girou no ar para evitar dois raios dourados e então cortou outra parede de vidro, essa de quatro metros, de cima a baixo com madra da espada, Lindon sabia que era apenas uma questão de tempo antes que ela fechasse a lacuna. Ele também já sabia o que aconteceria quando ela o fizesse.

Ele ficou de olho na batalha enquanto avançava, mas quando chegou ao último degrau da entrada da Tumba do Ancestral com sua nuvem, Yerin estava cercada por dois corpos ensanguentados e placas douradas efervescentes que um dia foram construções da Glória Celestial.

“Estão mortos?” Lindon perguntou. Ele não sabia porquê o fez. Não importava para ele que essa Escola perdesse mais dois combatentes.

Yerin limpou a lâmina na neve e depois a secou em seu manto. “Corpos de ferro são mais resistentes que couro de cobra. O homem não está ansioso para respirar, mas eu não quero encarar mais Remanescentes do que o necessário. A mulher irá aguentar até os discípulos da Escola chegarem aqui. Ela desmaiou de dor.”

Ele evitou andar sob a neve ensanguentada enquanto seguia Yerin escada acima. “Os artistas sagrados deveriam estar além da dor.”

“Ninguém está além da dor”, disse ela, e então parou diante de uma porta alta. Parecia ser de madeira, mas carregava a aura eterna de rocha sólida. De dentro veio um som que soava como aço batendo em pedra. A nota pairou no ar, infinita e pura.

“Selos?” ela perguntou, ajustando seu cinto de corda vermelho. Lindon ergueu a pilha. “Me repita seu papel aqui”, ela ordenou, mas Lindon não se ofendeu. Ela era mais forte do que qualquer um dos Jades no Vale Sagrado; ela tinha mais direito do que ninguém de mandar nele, mesmo sendo apenas um pouco mais velha.

“Colocarei esses selos em um círculo na frente da porta”, disse ele. “Quando você o atrair para fora, eu jogo um selo diretamente nele e corro enquanto vocês lutam aqui, onde os selos no chão irão lhe ajudar. Se isso não for suficiente, eu volto e selo tudo novamente.”

Ela olhou para ele. “Se você pensou que eu disse para você correr, você ouviu errado.”

“Eu tenho que correr para poder configurar isso,” Lindon disse, revelando uma polegada de faixa roxa. “Não estarei realmente correndo ao acaso, mas dando suporte estratégico. Agora, você tem a chave de proteção? “

“O Remanescente vai acabar com essa Formação como um touro acabaria com uma porta de papel.”

“Se ele estiver acabando com ela, então não estará acabando com você.” O ar de tensão ao redor dela estava diminuindo o que era uma coisa boa para Lindon. Antes ela estava falando como alguém a caminho de seu túmulo, e se ela morresse, ele seria o próximo. Agora, porém, ele viu a sombra de um sorriso em seu rosto, e então ela começou a se virar para lhe responder.

A porta se partiu ao meio. Ele não registrou nada além de uma luz repentina e um barulho agonizante antes que algo o atingisse no peito e ele fosse atirado para trás, caindo de costas.

Seu corpo não teve a chance de se recuperar totalmente desde a última vez que sua mochila cheia de coisas se chocou contra sua coluna, e ele se entregou a um instante de autopiedade imaginando suas raras bandeiras da Formação Fronteira quebrando-se ao meio. Então a realidade desabou sobre ele: aquela porta se partiu em duas por dentro. O impacto em seu peito foi Yerin empurrando-o para trás mais rápido do que ele poderia reagir, caso contrário ele estaria deitado no topo dos degraus e partido em dois pedaços.

O Remanescente de um especialista de um nível além do Ouro, o espírito que eles presumiram estar selado dentro da tumba antiga, havia cortado suas restrições como um machado atravessando uma teia de aranha. Ele nunca esteve realmente selado.

Ele estava apenas esperando.

Lindon pôs seu corpo machucado de pé, testando-o um pouco para se certificar de que nada estivesse quebrado ou sangrando. Então ele viu o Remanescente do Sábio da Espada.

Era uma massa de aço líquido ondulante na forma de um ser humano, como se alguém tivesse derramado um espelho sobre um homem. Seu rosto não tinha traços característicos, era inexpressivo e polido, como um reflexo perfeito. Não tinha braços ou pernas, apenas uma contínua chapa de metal, e andava pelo chão rastejando como um caracol.

O Remanescente era muito mais sólido, mais real do que qualquer construção Forjada que Lindon já vira. As únicas partes que reconheceu como madra foram os três anéis que cruzavam seu peito: um era de um branco vívido, outra era escarlate e o último era preto como carvão. Eles giravam em uma órbita rápida ao redor do peito do Remanescente da espada enquanto ele examinava a cena refletida em seu rosto liso.

Ele refletiu os dois corpos dos discípulos da Glória Celestial e Lindon, lentamente movendo seu olhar até pousar em Yerin. Lá ele parou. A discípula enfrentou o fantasma de seu mestre com a espada nua. Ela era como a versão mundana do Remanescente; o anel vermelho dele era seu cinto, o anel preto eram as vestes esfarrapadas dela, o anel branco eram suas cicatrizes, já a sua aparência era a espada brilhante dela.

“A discípula cumprimenta seu mestre,” ela disse calmamente. Um aluno em seu lugar normalmente teria feito uma saudação respeitosa, mas ela manteve os olhos no espírito.

Por um longo suspiro, o Remanescente permaneceu quieto. Espíritos poderosos podiam falar e não havia dúvida de que este era o mais potente que ele já viu. Ele falaria em breve, e a reunião de mestre e discípulo lhe daria tempo para posicionar as bandeiras. O Remanescente atravessou a porta antes que ele pudesse colocar os selos, mas ele esperaria uma chance de acertá-lo diretamente com um deles.

Seis ramos de metal líquido brotaram das costas do Remanescente, achatando-se e afiando-se até se transformar em uma auréola de lâminas. Ele continuou sem dizer nada. Sem uma palavra, ele atacou.

O corpo principal do Remanescente parecia uma estátua, mas suas lâminas eram quase invisíveis enquanto avançavam para frente. Yerin se moveu em resposta, e as armas se chocaram em uma explosão que enviou ondas agudas em todas as direções. As escadas sob eles racharam, cacos de pedra explodiram no ar e cortes apareceram nos pilares grossos. A neve se partiu como se gigantes invisíveis cortassem o solo com machadinhas, e uma pedra próxima se desfez em dois pedaços.

Lindon pulou na Nuvem de Mil Milhas e a alimentou com toda o madra que pôde. Ele não viu as lâminas deles se tocarem nenhuma vez, mas ouviu todas elas, os impactos preenchiam a encosta da montanha como uma nota constante. Independetemente do que Yerin pudesse acreditar, ele nunca seria capaz de se aproximar do Remanescente assim. Se o fizesse nunca veria o corte que lhe matou. Lindon só podia esperar que ela ferisse a criatura o suficiente para que o Remanescente perdesse parte de sua substância. Sem um suprimento de energia externo, ele não se recuperaria, ficando assim mais fraco conforme a luta progredisse. O mesmo, porém, aconteceria a Yerin.

Um jato de sangue disse a ele que os guardas da Glória do Céu inconscientes não haviam sobrevivido no fim das contas. Dois Remanescentes se ergueram dos cadáveres, um era um boneco de cordas douradas em chamas e o outro um esqueleto de vidro tingido de amarelo. Eles nem mesmo se levantaram completamente quando lâminas invisíveis os reduziram a pedaços.

Não temos tempo para isso, pensou Lindon, enquanto fugia tão rápido quanto sua nuvem lhe permitia. Eles precisavam terminar esta luta antes que os membros da Glória Celestial chegassem, mas ele não conseguia chegar perto o suficiente para configurar sua Formação. Yerin já havia demonstrado sua técnica da Espada Infinita; com dois especialistas usando-a, eles podiam estar cercados por centenas de invisíveis lâminas giratórias. Passar perto o suficiente para fincar uma bandeira seria correr o risco de morrer, e se ele se aproximasse do Remanescente para colocar um selo, seria despedaçado.

Lindon olhou para trás, examinando se a batalha havia se aproximado dele, e mais ao longe ele pôde ver algo que não havia notado antes. Havia uma pequena cabana de madeira sob a sombra da Tumba e uma criança em vestes brancas espiava a batalha. A criança levantou o braço e uma luz dourada lançou-se sobre a luta. O coração de Lindon se apertou.

Ancião Whitehall.

Algo desviou o feixe, enviando-o para o céu, pois nem a garota nem o Remanescente podiam dar atenção ao intruso. Ele era como o abutre, esperando que o lobo e o tigre se matassem para poder se banquetear dos cadáveres dos dois. O Ancião nunca deixaria Lindon se aproximar com os selos.

O vento gelado do topo da montanha parecia muito próximo. Whitehall ainda não o havia notado. Ele tinha uma oportunidade aqui, uma oportunidade de pelo menos atrapalhar o Ancião e dar uma chance a Yerin.

Mas ele não tinha tempo. Whitehall poderia notá-lo a qualquer momento. Ele tinha que agir agora. Lindon pegou uma bolinha de vidro com uma chama azul no centro e a rolou em sua mão. Se Suriel olhasse, o que ela veria em seu destino agora?

Antes que ele desistisse, Lindon saltou sobre a nuvem vermelha e disparou em um amplo arco. Ele não conseguia se mover tão rápido quanto Yerin, mas era o suficiente. Ele circulou por trás de Whitehall.

E então, ainda vasculhando seu cérebro em busca de ideias, ele atacou.

***

Aos olhos de um Jade, a luta entre a garota e o Remanescente era nada menos que espetacular. Um oceano de aura da espada prateada se reuniu ao redor deles, movendo-se como um mar em uma tempestade. Mesmo para Whitehall, seus golpes se moviam a uma velocidade que ele mal conseguia acompanhar. A discípula de preto acumulava aura em cada movimento, a qual se condensava em torno de sua lâmina em um brilho prateado que aumentava continuamente. Ela saltava, abaixava-se, deslizava e se esquivava, sua arma nunca parando, respondendo cada golpe do Remanescente de seis lâminas com sua própria espada ou com uma explosão de madra em forma de navalhas afiadas.

Whitehall conhecia alguns colegas da Escola da Espada Dourada que teriam sacrificado três dedos para ter um vislumbre dessa luta. Este era um caminho de aspecto de espada levado a um nível além de qualquer coisa no Vale Sagrado, além do que qualquer um ali poderia conceber.

Whitehall extraiu a energia da Glória Celestial de seu núcleo, focalizando-a de acordo com a técnica da Lança Celestial. A energia disparou em uma linha de luz e calor, marcando o chão entre os dois lutadores. A garota vacilou, recebendo um golpe na bochecha enquanto o brilho ao redor de sua espada tremeluzia. Até o Remanescente deslizou ligeiramente para a esquerda. Whitehall podia não ser capaz de matar nenhum deles sozinho, mas pardais não derrotam falcões atacando de frente. Eles os beliscam e circulam até que o pássaro maior desabe de exaustão dos céus.

Depois disso, os tesouros do Sábio da Espada, relíquias de um mundo além do vale, seriam dele. Ele não apenas poderia restaurar seu corpo, mas também se tornar o primeiro Ouro desde a fundação da Escola da Glória Celestial. O Ancião havia criado outra lança dourada quando algo lhe atingiu por trás.

Uma pontada de dor floresceu em seu ombro enquanto ele caia para a frente e a lança de luz errava o alvo, acertando a superfície da Tumba do Ancestral. Mas não durou tanto quanto deveria, apagando-se como uma vela enquanto o madra no corpo de Whitehall enlouquecia.

Ele caiu de cara na neve, suas entranhas se retorcendo como se seus intestinos tivessem tentado se enrolar e escapar pela boca. Seu espírito ardia e se contorcia no caos, queimando-o de dentro para fora enquanto ele tossia sangue no chão.

Com uma mão, ele tirou um ‘espinho’ de seu ombro. O sol da manhã brilhava e ele havia sido perfurado por uma adaga de meioprata.

Whitehall virou-se furioso empunhando a adaga ensanguentada. Seu corpo ainda era de Ferro e seu espírito o de um Jade; ele se recuperaria em minutos. Seu agressor não fez nada além de ganhar uma morte rápida.

Wei Shi Lindon apareceu no alto e, embora seu espírito fosse fraco, ele tinha a aparência de um homem forte. Até mesmo a enorme mochila em suas costas ajudava a criar um tom intimidante à sua silhueta. Whitehall hesitou por um mero instante de medo puramente instintivo, a reação de uma criança diante de um adulto furioso. Sua mente ainda era a de um especialista, mas havia algo primitivo em olhar para um ser humano com o dobro do seu tamanho.

Durante aquele meio segundo de vulnerabilidade, Lindon girou e deu um soco no estômago de Whitehall. O impacto não fez muito—apesar de sua vantagem em peso, Lindon ainda não havia alcançado o Ferro, então Whitehall tinha segurança absoluta em sua força—mas madra puro externo invadiu o núcleo de Whitehall.

Seu treinamento tomou conta, e ele circulou madra defensivamente, mas ele poderia muito bem ter poupado seu esforço. Nada havia acontecido. Whitehall não pôde se negar sentir um pequeno alívio. O Inanimado poderia muito bem ter tentado apagar um incêndio na floresta com um copo de água. Ele agarrou o pulso do jovem com um aperto de ferro, prendendo-o no lugar, e parou um momento para saborear a repentina expressão de medo no rosto de Lindon.

Então ele revidou.

***

Lindon estava realmente grato por sua experiência no Festival de Sete Anos. Sem toda essa prática lutando contra crianças de oito anos, ele nunca teria sido capaz de atingir com precisão o núcleo de Whitehall.

Não que isso importasse, no fim das contas. Ele esperava que a perturbação causada pelo punhal de meioprata durasse tempo suficiente para deixá-lo pousar uma Palma Vazia em seu inimigo, coisa que lhe teria dado tempo suficiente para correr. Whitehall teria se recuperado em segundos e o perseguido, esse era o plano.

O que não era o plano era que o jovem Ancião o agarrasse pelo pulso. Ele tentou resistir, mas era como se seu braço tivesse sido fincado na pedra. Em meio ao pânico ele teve tempo para apenas um pensamento. Rápido demais. Whitehall arrancou a adaga meioprata em um instante. Lindon nunca teve chance.

O Ancião sorriu, seus lábios sangravam, tal expressão parecia demoníaca no rosto de uma criança. Então ele se virou sem o soltar.

No último segundo, quando Lindon percebeu o que estava para acontecer, ele enfiou a mão livre dentro de suas vestes externas e agarrou a pilha de selos espirituais. Ele nem mesmo teve tempo para ter medo antes de ser jogado pelo ar.

O Ancião o havia lançado em direção à luta.

Enquanto ele voava para frente, o tempo lhe parecia passar numa velocidade diferente. Embora seu voo deva ter levado apenas um segundo, para ele pareceram minutos. As seis lâminas do Remanescente brilhavam e a espada de Yerin teceu um movimento defensivo e ao redor deles a pedra foi cortada em pedaços.

Com um esforço desajeitado, ele jogou todo o pacote de selos espirituais na direção geral do Remanescente. Eles provavelmente seriam cortados em pedaços no ar e, mesmo se pousassem, teriam uma chance maior de cair no chão do que de acertar a criatura.

Ele precisava de outra coisa. Ele ainda podia sentir sua conexão com a Nuvem de Mil Milhas, então ele injetou madra nela desesperadamente, agarrando-se a qualquer coisa que pudesse salvá-lo. Ela nunca o alcançaria a tempo, mas ele tinha que tentar algo.

Quando Yerin lhe viu, seus olhos se arregalaram e se estreitaram diante dos selos que caíam. Ela não hesitou. Sua postura defensiva entrou em colapso e o sangue jorrou instantaneamente de seu corpo por cinco cortes diferentes enquanto ela recebia os ataques do Remanescente. Sua espada ganhou força com uma névoa de calor, e quando ela cortou de baixo para cima, uma onda de poder incolor saiu de sua arma. O madra atingiu o Remanescente de frente, abrindo um corte vertical em sua superfície imaculada e empurrando-o alguns passos para trás, em direção aos selos que caíram. Ele estremeceu quando os papéis tocaram seu corpo, fazendo com que o madra Forjado que lhe dava forma ondulasse como uma poça.

O resto do golpe de Yerin passou pela porta aberta da Tumba, causando uma linha de destruição pelos azulejos e um rasgo do tamanho de um homem na parede interna. A pedra se desintegrou nesse enorme buraco triangular, e ele teve um vislumbre das montanhas atrás da Tumba antes que de entender melhor o que tinha acontecido.

Tinha dado certo, e então ele caiu no chão.

Em vez de bater no gume de uma espada ou num canto irregular de uma pedra cortada, ele caiu numa nuvem vermelha que pairava um metro acima do solo. Ele pousou nela de lado, e então virou para baixo. Mais uma vez Lindon caiu com força de costas. O impacto em seu crânio encheu sua visão de estrelas e ele tinha certeza de que dessa vez algo em sua mochila tinha quebrado.

Mas ele sobreviveu.

A batalha recomeçou, lâminas de força invisível assobiando enquanto cortavam o ar sobre seu rosto. Coberta de sangue, Yerin forçou o Remanescente passo após passo. Esse último estava vazando partículas prateadas de essência agora e a batalha se afastou dali.

Enquanto isso, Lindon manteve o controle de seu espírito sobre a Nuvem de Mil Milhas. Enfraquecido ou não, os ataques do Remanescente ainda eram suficientes para matá-lo, e ele queria colocar o máximo de distância possível entre eles. Apoiando-se nessa construção, ele meio rastejou, meio mancou até a Tumba do Ancestral. Lá, ele estaria seguro da luta e poderia planejar o próximo passo.

Lindon tinha acabado de passar pela porta quando uma linha de calor dourado explodiu atrás algo dele, errando-o por centímetros. Parte de sua mente ainda estava ativa, avaliando suas opções, mas o resto dele tremia de terror quando Whitehall apareceu na porta, uma criança em vestes brancas manchadas de sangue, Lindon agora soluçava.

O Ancião entrou, olhando de um lado para o outro como se estivesse verificando que outros truques Lindon havia preparado. Essa visão foi como o amanhecer surgindo diante dos olhos dele. Whitehall, um dos líderes Jade da estimada Escola da Glória Celestial, estava cauteloso por causa dele. Lindon se endireitou e levantou, embora precisasse apoiar-se na nuvem para fazê-lo.

O vento assobiava entre a porta aberta e o corte lateral feito por Yerin, batendo em sua pele como gelo, mas ele ignorou isso e Whitehall e também olhou para as paredes e o teto como se verificando suas armadilhas.

O interior da Tumba do Ancestral era vasto e vazio, com tantos pilares no interior dela como no exterior e o teto estava coberto por outro mural de quatro bestas: um dragão serpentino azul em uma tempestade, um tigre branco coroado, um guerreiro de pedra com uma carapaça de tartaruga e uma fênix vermelha em chamas. No fundo da sala havia uma porta ornamentada, presumivelmente levando ao túmulo real, porque não havia corpos aqui. Ou talvez ela fosse a entrada para o labirinto que Yerin havia mencionado.

Whitehall brandiu a adaga de meioprata em uma das mãos e disse. “Não sou idiota, nunca pense que sou. Eu peguei você. Você não é Inanimado.” Lindon se concentrou em recuperar o fôlego e tentou não transparecer isso. “Um Inanimado não tem madra para usar uma Nuvem de Mil Milhas.”

Sem a fruta da Orus ancestral, ele nunca teria sido capaz de ativar a nuvem. Ou a Formação Fronteira da Raposa Branca. Agora que ele pensou nisso, aquela fruta salvou sua vida mais de uma vez.

“Inanimados não ganham torneios, nem mesmo entre crianças.” Sem a Palma Vazia, ele nunca mesmo.

“Inanimados não vencem lutas contra Ferros, com ou sem truques.”

Whitehall tinha realmente visto os Remanescentes de vespas derrotando Amon. Tudo que Lindon fez foi abrir uma jarra com uma inscrição rúnica e o Ancião sabia disso.

O Jade no corpo de menino brincou com a adaga de meioprata, estudando-o. “Eu acreditava que você devia ter trapaceado para passar na Prova da Ascensão Gloriosa, mas agora entendo. Qualquer pessoa pode colocar uma insígnia de madeira. O que você realmente é? Ferro? Você não é Cobre, um corpo de Cobre já teria morrido numa situação dessas, e um Jade não se diminuiria tanto assim.”

“Desculpas, Ancião,” Lindon disse respeitosamente. “Este aqui se sente honrado pela atenção, mas o Ancião certamente tem problemas maiores do que este humilde discípulo.” Whitehall acenou com a cabeça lentamente. “Eu terei em breve. Jogando selos em um Remanescente no meio do ar enquanto chama uma nuvem? Esses não são os reflexos de um Cobre.”

Desta vez, Lindon se permitiu um pequeno sorriso. Ele estava orgulhoso de si mesmo. “Seja você quem for, você está trilhando o caminho de um tolo.” Então Whitehall fez algo que Lindon não havia previsto, ele girou a adaga de meioprata e ofereceu a Lindon o cabo da mesma.

“Trabalhe comigo.”

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